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"A
fuga" e outros poemas de Alberto Lacet
PEQUENA
HISTÓRIA DE ASSOMBRAÇÃO
Destino
de leão morto
É
ficar insepulto
Pois
do contrário
(Animal
covoso que é)
Há
risco de se recompor
Buscar/encontrar/devorar
(Rasgando
o ventre da terra)
Sepultura
de homem
OFICINA
Um
leão é cavernoso
Mas
tem a cor do sol
Teria
sido forjado
De
metais confusos
Quando
de uma bola de fogo
A
terra ainda não passava
Do
que hoje resta do inicial leão
Coração
é peça mais antiga
O
restante se fez à volta
Uma
eternidade o depurou
Para
ter hoje cauda e juba
A
cauda é um tição
A
juba resplendor
A
CONQUISTA
E
assim, após longo cerco
Caiu
a cidadela
Penetramos
sob o olhar
Cabisbaixo
de ruínas
O
escombro
De
quando em quando
Fumega
e nos interroga
Um
silêncio
Se
nos depara
De
toda exuberância que havia
Não
restou senão um eco
E
nem assim ecoa
Na
acrópole vazia
Vem
das artérias
Do
nosso anterior stadium
Tumultuoso
que trazíamos
Porém
entre os destroços
Escutar:
Breve
trinado de pássaro
Solitário
rumor de água
A
CASA
Não
é verdade que seja uma casa improvável
A
que em mim se manteve, sempre, de portas fechadas
E
com fachada voltada para o nascente
Não
sendo difícil antever alguns compósitos:
O
pão dormido sobre a mesa
As
cadeiras um tanto desarrumadas
A
persiana tênue, endurecida pelo silêncio em volta
De
um existir além no tempo, a se pôr em dúvida
Mesmo,
se algo espantoso e súbito comece a ressoar
Como
um bater crescente de invisíveis asas, vindo
Rápido
e catártico, numa agitação inexplicável
Varrer
cada canto, e antes que de vez silencie
Terá
convocado o frio oxigênio
A
vida simples e fria que se refez
Embora
não haja nada dito sobre isto na pauta ociosa
Em
que meus dias, os nossos, mergulham finalmente
Numa
espécie de orgulho tribal para o fracasso
Como
se o sonho, o enternecimento não fosse
O
lume aceso e invisível, a arder por dentro
E
a secreta obstinação dos componentes
Uma
pústula guardada com muito cuidado
Que
não demoveremos, haja o que houver:
A
sombria carga de emoção e dor
A
OUTRA LUZ
A
luz – como forma de dizer e estar por perto
Como
aliança secundária a se fazer com o nome
Quase
uma segunda mágica, menor e extraída
do
exponencial refugo e para outro reduto
De
outra forma a luz – como nunca foi ou será?
Quem
sabe esse guarda-chuva – que o tempo
A
tempestade baniu das vestes, e que tentará
Na
rota do possível, uma vez mais
Com
seu ferruginoso passado de retidão
Descrever
um círculo – articulando as hastes nuas
Quem
sabe essa outra forma – dada de empréstimo
E
sem que por nenhuma específica distinção
Debaixo
de regulação extrema e condenada
A
garimpar nos escombros, no talhe de lampejos
Invictos
pela paisagem – seja outra luz
A
FUGA
Onde
houvesse aquela rua que não ia dar em nada
Aí
estaria o moço e o molhe de chaves pego ao acaso
Quem
sabe com alguma ideia germinando na cabeça
E
a percepção de que nenhuma migalha lhe bastaria
Numa
cena inundada de vento frio soando palavras
Na
ação aferrada ao tempo e seu perfeito quadrante
Com
uma carroça passando ao longe, além da ponte.
E
depois acontecendo quando nada é o que se espera
Aí
não estaria aquele moço aonde o fossem procurar
Não
seria visto balançando pernas na aba da ponte
E
apressados tentariam chegar antes dele e da noite
Ao
que seria seu plano apenas vagamente percebido
Até
quase um vento entrando em portas escancaradas
O
homem da bomba de gasolina traz afinal uma pista
Outros
só interessados em ficar sentados nos batentes
Entre
eles o hábito de calar ou de não medir palavras
Colher
gesto maduro de ser uma fruta suspensa no ar
Com
a notícia prosperando e fazendo que o tempo voe
Os
abstraindo assim das piruetas do vento na calçada
É
bem-vinda se traz uma forma especial de sofrimento
Alegre
é a corda pendendo de caibros nus da garagem
E
anos depois sob sol e chuva ela havia de permanecer
Largada
entre monstrengos férreos relegados à neblina
Via-se
a carcaça carbonizada da boleia de caminhonete
Apeada
ao chão, num jazigo de perguntas sem respostas
À
margem do caminho onde passavam, e ela sempre ali
Desde
que dele separada e trazida do aonde fora levada
Por
aquele nunca mais visto em nenhum lado da ponte.
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