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AS
CHAGAS
Desposo-vos meu Criador e Salvador,
desposo-Vos. Conservai intacta minha fé, para que um dia possa eu
celebrar convosco as bodas eternas. (Santa Catarina de Siena)
Aqui sangram meus olhos, mãos e pés
marcados como os Vossos. No abandono,
chamais-me com brandura, e eu Vos
desposo
aos sete anos setenta vezes sete.
Que esse sangue me inunda, reme, unge,
e os demônios crocitam, ungueados,
e urdem planos vis naquela tumba
em que já enterrei desejos da carne.
Não quero para mim o amor de homem,
tão precário se mostra, no interesse
de um corpo perecível e padecente –
não, não é orgulho – e a cobiça é louca!
A traição se faz de muito amar,
e isto é o amor, dolorida é esta
essência,
um eterno trair, por não tomar
do amado a posse externa, contingente,
prazeroso sim, que Deus assim o quis,
belo e bom a Seus olhos. Vê o ser:
em seu caminho tem o dom magnífico
de unir o corpo à alma em casamento
... deixá-lo, por saber de outro amor –
este, o dos tabernáculos da dor:
deslumbrante harmonia me seduz
alegria de amar em plena luz
dentro da alma sedenta do Infinito.
Já dispensei de Lúcifer o convite,
deserto ardente em que me vi proscrita,
rejeitada por todos na família.
Contudo. Em novéis águas ancorar,
escutando as mensagens em erma noite
de mãos em concha nos ouvidos cálidos –
nos ritos de passagem, sem pernoite,
pois a vigília é clara, e as orações,
apascentam este espírito em canções
nessas palavras com sabor de hóstia,
e serpentes fluindo em minha história.
Oh, sim, as garatujas infantis,
polida superfície, aquela, eu vejo
ilesa nos canteiros de jacintos,
nas margens e no sangue das abelhas,
e o dentro dos rochedos, na fissura
este vinho escarlate, este momento
é mineral, eu sei e agora, rígido –
este carvão das horas de tormento
amainado no pão da Eucaristia.
Oh, delícia maior, ó vida grata,
tua antevisão entra na vida e cria
os caminhos do amor em cada estrada.
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Dentro de ti tens feras, animália
que é venenífera. Mentor de bestas,
o horto de tua alma é envenenado
de improbidades vis, traições,
malfeitos.
Ó miserável, aonde tu chegaste,
enfermo e vão, a compleição em chagas,
sem todavia ter vivido a Cruz –
vestido e apavesado, mas sem luz
que de cima te invade, e não percebes.
Tu denegriste a glória do teu Pai,
fora dos jardins santos de tua igreja
tal uma prostituta que se vai
sem honra e sem pudor, deleite ou paz.
E nunca te envergonhas, nunca cessas,
nessa bazófia estranha e alvarinha
bandoleiro e embusteiro incorrigível.
Os porcos atiraram-se nas águas,
penetrados da fúria do execrado –
destino malogrado dos doentes
de poder e de glória, os quais dispenso.
Espírito sem luz, tu perambulas
em florestas de urzes, a ferir-te,
pois permitiste ao demo o entranhar-te,
e te enleias à imagem que não excluis.
Tu já morreste, e quedas morto-vivo,
tal vampiro, estuário de pavores,
esquecido de ti, hostil a ti
pela concupiscência, por seu dolo.
Muita cal nos sepulcros violados
em festins do demônio, esse audaz,
esse profanador de tantas almas
ignorantes do torvo lupanar.
Vade retro Satana, eu te conjuro,
pelo Pai, pelo Filho e o Santo Espírito!
Foi-me dado o poder de ver a injúria,
porque descortinei obras do impuro
em minha vida exposta, a mim, banida,
quando este corpo foi-se do calcário
de que somos moldados, mais, a lápide
do corpo amortalhando a alma transida.
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Prostro-me ao chão, não mais irei
comer,
nem beberei mais nada: o corpo falha
demasiado vai-se em vãos manjares:
Ele, somente Ele é alimento
no pão da vida, ó santa Eucaristia,
ó sacramento grato para o espírito
abrigado no seio de quem guia,
à Santa Madre Igreja, seus caminhos.
Pare este tempo, agora, somos carne
e sangue e nervo e transe, pois nos
tange
um sentir invadido de relógios
num só carpir de fogo, em necrológio.
Se eu vier a morrer, aos trinta e
sete,
sabeis que é de paixão a minha morte,
paixão por esta Igreja que nos pede
um sim, noiva de Cristo, seu
consorte.
Este sangue minando das feridas
no corpo padecente, narram a vida
de uma pobre mulher cuja beleza
despediu-se da vasta cabeleira
que lhe cobria os ombros, dorso e pés.
Queriam-na rendida a um estrangeiro.
Já predestinada, alma flamejante
às bodas consumadas para o céu
celebradas bem cedo, sem retorno,
na solidão do quarto da menina,
sem platéia e sem palmas, pura entrega
ao sempiterno Amado, ao doce Esposo.
Deste lado direito sangra o flanco,
os lábios já gretados na agonia
de sede portentosa, e é vinagre
o que oferecem à boca consumida.
Um sol abrasador castiga o cenho,
pende a cabeça augusta, soberana,
há um gemido de dor, tudo estremece
penetrado de luz, e estertora um deus
e descobrem-se neves nesses sóis,
e revelam-se gelos nessas chamas,
e o desejo despido, sem tocar,
só o pensamento alado, inda mortal.
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Eu, Catarina, só e analfabeta,
dito a minha sina de dentro da cela:
já estou só voz, vejo só luz, sou só
expectação em corpo de donzela.
Quero, sim, a palavra que murmura,
achada no fulgor do pensamento
e no bater das cordas, paixão pura,
aliviando chagas e tormentos.
Essa palavra extrema é minha carne,
aqui é minha casa e minha cama,
daqui eu vos aceno, só enquanto
a casca desta alma não se quebra.
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