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COMENTÁRIO A UMA NOTÍCIA
A pedido da
Nestlé, a Prefeitura de São Paulo decidiu reduzir a qualidade
nutricional da sopa que pretende distribuir em um programa que irá
reunir pais e alunos aos sábados nas escolas e creches municipais. A
gestão Gilberto Kassab (DEM) diminuiu a quantidade de carne, frango
e verdura exigida na sopa depois de um apelo feito pela
multinacional durante uma consulta pública para a compra do produto.
A previsão das nutricionistas do município era que uma das sopas
tivesse 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e 3 kg de "outras" hortaliças
(por 100 kg de sopa desidratada a ser distribuída). Com a mudança
feita diante da manifestação da Nestlé, a mesma sopa deverá ter só
0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e 1 kg de "outras" hortaliças.
(Folha de São Paulo, 12-9-2007)
Ralear a sopa
não implica
diminuir a
quantidade
dos ingredientes
que a compõem,
que lhe dão
corpo e densidade.
Diminuir pode
ser também
acrescentar ao
alimento,
isto é, deitar
água à medida,
tornando ralo o
seu cimento.
Isso apaga o
incêndio da sopa
e acende o fogo
da ambição,
que às vezes
grassa tanto mais
quanto mais água
há na ignição.
15-9-2007
DAR E NÃO DAR
Cozinheiras de três escolas
municipais da zona leste de São Paulo afirmaram que ganham um prêmio
para racionar comida nas unidades, revela reportagem publicada nesta
terça-feira pela Folha... (Folha Online, 11-9-2007,
http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u327418.shtml)
Dar e não dar são dois extremos
de um mesmo dar que não se engana
na conta: o mesmo saldo exato,
mesma atitude muquirana.
Dar o que é pouco e racionado
(como quem toma ao dar, ou furta) –
é dar entre paredes, cercas,
dar com critério e rédea curta;
o que às vezes é como não
dar ou nem dar, que distribui
uma ponta, um farelo, um grão,
que a quem recebe diminui.
Quem de dar pouco tira um prêmio,
isto é, faz disso o seu cenário
(ou o seu teatro) e se compensa:
e dá, sempre, mas ao contrário –
vai enchendo a parte vazia
do que era necessário encher,
enchendo-a de um vazio cheio
que tanto mais pode conter;
enquanto, da outra parte, enchendo
um vazio que se esvazia
quanto mais se enche de si mesmo,
enche só como quem desvia;
porém sem nunca errar na conta,
porque sabe de onde tirar,
tirando de reter o prêmio,
fazendo de tirar um dar.
Dar e não dar são como espelhos,
ou como as pontas de um cordão:
de um lado a consciência limpa,
o correto do gesto e da ação,
mas do outro: o dar que não franqueia
ou que, dando como quem pede,
faz de dar um tirar aos poucos –
dar que mais toma do que cede.
11-9-2007
A
UM BLOGUEIRO DA INTERNET
I
Se
não compreendes um assunto, fala dele.
Considera
que o teu leitor o sabe menos.
Põe
nisso convicção e duzentos venenos,
como
um sapo que os traz ocultos sob a pele.
Publica
só as cem cartas que te bajulam,
que
afirmam concordar com tudo o que disseste.
E
ignora as outras mil cuja opinião conteste
teu
frouxo discorrer, onde os erros pululam.
Qualquer
que seja a conveniência do argumento,
escolhe
sempre o mais adequado ao momento.
Faze
disso um mister ou uma profissão.
E,
quando a obscura voz da verdade te sonde,
não
penses outra vez, mas de pronto responde
que
exerces tua liberdade de expressão.
II
Qualquer
que seja o caso – ou claro, ou duvidoso –,
mostra
que tens sobre ele uma opinião formada,
que
deve anteceder a própria coisa dada
(como
um fruto de cera em prato luxuoso).
Sê
firme em teu julgar e sempre imperioso,
dando
a entender que tua fé não teme nada,
que
foi o próprio céu que te mostrou a estrada,
que
és pai de uma coruja e de Minerva esposo.
Não
deixes que um qualquer, para bancar o tal
(nem
o próprio Platão, nem seu melhor pupilo),
seja
teu professor, mesmo que liberal.
Mas
dize sempre que és livre para entender,
que
ninguém pode te obrigar a compreender –
e
que a verdade é só uma questão de estilo.
BAIRRO NOBRE
Foi-se ao trabalho. O dia todo cheio,
sem um minuto para distração –
que empresa não é jogo, nem passeio.
(E ainda pensam que é fácil ser
patrão...)
Ela também tem uma ocupação –
embora não precise, e ele ache feio.
Dar aulas numa escola. Por que não,
se é preciso ir à luta, sem receio?
Lá dentro a velha pensa: “Que maçada!
Depois de tão comprida caminhada,
foi se casar com esse vira-lata!”
Passa um carro lá fora. E o menininho
aparece na porta: cópia exata
do burguesão, que é pai do burguesinho.
CONVITE PARA O ENFORCAMENTO
Vem-me por e-mail o convite
(enviado não sei por quem)
para assistir ao videoteipe
do enforcamento de Houssein.
Recebo-o com desatenção
e deito-o fora, mas no instante
em que o suprimo um pensamento
se equilibra em mim, hesitante.
Que cor é que se pôs aqui,
que não é só uma cor qualquer,
mas que de viva aguça em nós
esta ansiedade de saber,
que é mais que a ansiedade vulgar
que toda morte põe em curso,
a ponto de gerar o equívoco
de uma incerteza sem recurso?
Talvez se trate só da morte,
mas neste caso a morte é mais
que o espetáculo cotidiano
das mortes vulgares, normais;
talvez se trate de saber
que a morte aqui se disfarçou
em morte-objeto, a morte-coisa
cujo preço se calculou
segundo o apelo não do show
ou do alarido que se faz,
mas de um valor-morte, visível,
que o morto finge por detrás –
valor que, entanto, não esconde
o fato de na morte vista
(mesmo a mais cara e mais notória),
como um defeito que se enquista
sob a superfície domada
da cor e do disfarce, haver
um traço da outra morte: aquela
que é sempre vulgar e qualquer.
23-1-2007
DE MANCHETES E ERRATAS
"Essa história de manchetes enormes e
uma errata desse tamanhinho, que ninguém lê, me parece um ato de
absoluta arrogância." (Geraldo Grossi, Ministro do TSE)
É de supor que aquela parte
da verdade que lá não coube
e que ocupou pequeno espaço
na outra verdade que se soube,
quando editada ou corrigida
(se é que se pode corrigir
o que se chama de verdade,
sem desfigurar ou mentir –
sem inventar uma verdade
que à anterior se superponha,
como quem fala enquanto dorme
e trata por real o que sonha),
venha ocupar maior espaço
do que ocupou na outra ocasião,
justificando que se imprima
uma nota de correção.
Mas pode ser que às vezes faltem
à verdade que se corrige
o estofo, a consistência e o gosto
que de uma verdade se exige:
pode ser que a uma tal verdade
falte o peso que justifique
o esforço mesmo de escrever
uma errata que a retifique.
Então, nem tanto pelo escrúpulo
de dar a verdade à verdade,
mas de medir com parcimônia
o jeito, a forma, a densidade
que há de haver no medir palavras
com que se diz o que não deve
no dito adquirir novo peso
(maior que o primeiro que teve),
se faz que a errata não alcance
comprimento maior que aquele
que se deve dar ao não-dito,
cabendo inteira dentro dele:
se faz que tenha bom tamanho,
conforme o fiel que se utiliza,
sem desperdício da (já escassa)
verdade que se economiza.
out./2006
JINGLES DE CAMPANHA
Os jingles de campanha vão
dizendo com estrondo, com
uma espécie de bom humor
que é mais da intenção que do som –
que é como a isca com que se atrai
o eleitor-peixe, que se quer
pescar não com o anzol da espera,
mas com a tarrafa do que vier –,
que o candidato da comarca,
o benfeitor da freguesia
(parente do contraparente,
primo do sogro de uma tia),
é melhor do que o que está longe,
porque se enxerga menos mal,
tal como a obra de algum oleiro
que se dispõe sobre um jornal.
*
No “santinho” ele sempre exibe
um sorriso de quem se ri
da improvável e nada santa
coincidência de estar ali
(como quem foi ali lançado
por algum tiro de canhão
e, tendo suportado o impacto,
faz de tal coisa o seu refrão).
*
Talvez se pense que esse peixe
(o eleitor) – tão pouco assanhado
pela torrente-senador
ou pela maré-deputado
(mas que só se pesca aos cardumes) –,
por míope e surdo, necessite
de muito ruído que o desperte
e muito bom humor que o excite:
que seja peixe de água turva
ou que, lento, nade melhor
quando o atraem as rimas fáceis
e a grande cara num outdoor.
(Cara que, não nos iludamos,
nada tem de recife ou penha,
mas é móvel como as areias
ou antes, na pesca que a empenha,
como uma efígie do dinheiro:
familiar só para quem tem;
que, a flutuar na água em que pesca,
vai tão depressa quanto vem.)
*
Os jingles de campanha vendem
como se próximo o distante,
o que tem asas e se escapa,
batendo-as, leve, num instante.
Para atrair o peixe-voto,
dão-lhe por isca uma ave esquiva,
que, inerte sobre a superfície,
não se adivinha que está viva.
Quando esse peixe, cego e surdo,
mal consciente do que abocanha
e de que a isca é mais abundante
na estação de pesca, a campanha,
morde nada, ou só morde rede,
que é o que lá está para morder –
ave defunta e de papel,
mas bem capaz de se mover.
set./2006
UMA VISITA (FRUSTRADA) AO SÍTIO DE DRUMMOND NA INTERNET
No sítio de Drummond
não há nada para ler:
só as capas dos livros
e a vontade de ver
o que eles têm por dentro:
se Drummond, se poesia,
se o selo da editora
ou outra coisa fria
que não sei bem o que é,
mas que talvez lá exista
(escondida, no fundo,
como uma isca, uma pista
que nos leve a Drummond
e ao que lá fomos ver:
uma canção amiga,
um poema para ler).
Fui lá para saber
o que no sítio havia
(se é que em sítio de poeta
há mais do que poesia),
mas só o que encontrei
foi este enigma claro:
o livro todo capa,
a página anteparo.
1-5-2006
POEMA SOBRE COISA ALGUMA
Real e Barcelona empatam com gols dos
Ronaldos
(Notícia publicada no Último Segundo,
em 1/4/2006)
Dois Ronaldos fizeram empatar
o Real e o Barcelona:
quem vive em Barcelona
provavelmente
sentiu o peso
do Barcelona empatado
ao Real
(e do Real empatado
ao Barcelona).
Culpa dos Ronaldos.
Não há coisa pior
do que dois Ronaldos.
O
PICASSO DA PREVIDÊNCIA
I
Se
luz de lâmpada ou lanterna,
de
lamparina ou lampião,
de
candeia, farol ou vela
não
basta para tal função,
quem
sabe a luz de algum incêndio
seja
capaz de revelar
o
que, por baixo do segredo,
nenhuma
luz pôde mostrar,
conforme
foi o que ocorreu
na
Previdência, onde se viu
lavrar
incêndio de tal monta
que
ao menos isto descobriu:
entre
os destroços do sinistro,
e
a cinza, e os ferros retorcidos,
e
mil retalhos de papel
que
eram indícios carcomidos
de
decisões por empreender,
intrincadas
como novelos,
e
outros fragmentos destroçados
(expressivos
como cabelos)
de
alguns processos encrencados,
e
outras coisas de erro e embaraço –
a
inusitada maravilha
de
um quadro de Pablo Picasso.
II
Resta
entender o que um Picasso
teria
ido lá fazer,
no
lugar onde se investiga,
onde
tudo se há de saber.
Se
falso, quem tomou a idéia
e
tal proeza realizou
de
ocultá-lo, deixando-o exposto,
conforme
a sugestão de Poe,
na
parede de um escritório,
aonde
o fogo não ascendeu,
como
a poupá-lo da catástrofe
que
sobre o resto se abateu –
como
uma espécie de brasão
adequado
não tanto à idéia
da
idoneidade do lugar
(da
boa fé de quem a creia),
mas
do enigma por revelar
e
o que mais da curiosidade
que
busca o fundo e o quer trazer
à
luz difícil da verdade.
(De
onde se tira a conclusão
de
que, mais que a luz da justiça,
por
imóvel, às vezes quadra
uma
luz ágil, movediça.)
III
Se
autêntico, se verdadeiro,
resta
saber quem o comprou
e,
amante da arte e do moderno,
numa
parede o pendurou
e
por que o fez: se por mostrar
que
ao rigor e à severidade
se
deve acrescentar o toque
de
alguma sensibilidade;
ou
se apenas para dizer
a
quem de pasmo e de interesse
que
nem tudo é conforme a fé
o
supõe ou como parece;
que
por debaixo do visível
há
sempre um plus ou um
sobejo
a
implicar o significado
do
real objeto do desejo,
o
qual, dispendioso, contrasta
com
o que haja ali por contrastar
e,
opulento, passa distante,
sem
em seu curso tangenciar
a
curva magra da justiça,
com
seus caminhos, suas rotas,
que
apascenta e, com mão de ferro,
distribui
a miséria em gotas.
(janeiro/2006)
À MARGEM DA
ATUAL SITUAÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA
Os justos mordem os injustos
de um modo límpido, oficial,
utilizando-se dos dentes
que lhes concede o tribunal.
Certos de que só desse modo
é que se extirpará o caroço
de mal que empesta a carne, mordem
mais fundo – até o limite do osso.
(Outrora se fazia assim
nos tribunais da salvação,
talvez com um pouco mais de arrojo
e violência na incisão.)
Se acaso mordem outro justo
com dentes que a justiça deu
(e após dizem que foi o dente
e não a boca que mordeu),
cospem por cima uma saliva
de preceptivas e morais
com que pensam cauterizar
as chagas novas, naturais.
Por não morder-se mutuamente
ou só morder o que convém,
deixando intacto tudo aquilo
que a justiça distingue bem,
não procedem conforme a grega
razão costuma prescrever:
isto é, primeiro dando à luz
o que antes não se pôde ver;
mas vão espalhando ao redor
uma poeira de intenções,
de bons propósitos, de sãos
desígnios, justificações,
que só se expressa em oratória,
e em gestos amplos, tribunícios,
que a outros olhos talvez pareçam
mais adequados aos comícios.
Vão lançando uma rede larga
e de malha fina em que o peixe
da opinião pública se enreda
(conforme o engodo que se deixe):
pois pouco importa a claridade
que a vista possa pretender:
importa o imperativo do ato,
a missão nobre de morder.
(agosto/2005)
DESCONSTRUINDO
O DEPUTADO
A
situação tomou a peito
desconstruir
o deputado
e
o faz virando pelo avesso
o
que não tem avesso ou lado:
apanha
um fio e logo faz
com
ele vir o pano todo,
e
então com o fio que puxou
amarra-o,
prende-o de algum modo.
Mas
esse peixe, que não cabe
na
própria rede que o captura,
viscoso,
logo se escapole
e
salta a outra maior altura.
(Quem
é que agarra tal salmão
no
fluxo louco da corrente
e
diz que nada na verdade,
ou
diz que trama, e diz que mente?)
A
oposição, porém, segura
de
que tem contas a acertar
não
com o difícil deputado,
mas
com quem o esteja a enredar,
trata
de reconstruí-lo, armando
de
nova linha o mesmo tear:
e
o faz levando mais para o alto
o
peixe que não quer pescar.
(Ou
põe de volta cada carta
que
a situação embaralhou
e
vai – Penélope – ao encontro
de
um Ulisses que não voltou.)
E
arrepanha, e alinhava, e cirze
essa
esperança de tecido
com
que há de reparar os furos
do
deputado desconstruído.
(E
aplica nisso tal fervor
que
em cada ponto que se esgarça
mal
se descobre a cosedura
do
sério ou o remendo da farsa.)
E
o deputado, por seu turno,
ave
ou salmão que se desvia
de
cada língua que o bajula,
de
cada farpa que o desfia,
lá
paira, enigma ou charadista –
inacessível
como um céu
à
situação, que nunca o viu,
à
oposição, que já o perdeu.
30-6/1-7-2005
(Poemas
e crônicas de Renato Suttana)
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