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Bem-vindo à homepage de Renato Suttana.

Laurence Stephen Lowry, Incidente na rua

 

Ninharias

 

e outras anotações marginais

 

(Renato Suttana)

 

Comentário a uma notícia

Dar e não dar

A um blogueiro da Internet

Bairro nobre

Convite para o enforcamento

De manchetes e erratas

Jingles de campanha

Uma visita (frustrada) ao sítio de Drummond na Internet

Poema sobre coisa alguma

O Picasso da Previdência

À margem da atual situação política brasileira

Desconstruindo o deputado

 

 

 

COMENTÁRIO A UMA NOTÍCIA

 

A pedido da Nestlé, a Prefeitura de São Paulo decidiu reduzir a qualidade nutricional da sopa que pretende distribuir em um programa que irá reunir pais e alunos aos sábados nas escolas e creches municipais. A gestão Gilberto Kassab (DEM) diminuiu a quantidade de carne, frango e verdura exigida na sopa depois de um apelo feito pela multinacional durante uma consulta pública para a compra do produto. A previsão das nutricionistas do município era que uma das sopas tivesse 7 kg de carne, 2 kg de cenoura e 3 kg de "outras" hortaliças (por 100 kg de sopa desidratada a ser distribuída). Com a mudança feita diante da manifestação da Nestlé, a mesma sopa deverá ter só 0,5 kg de carne, 0,8 kg de cenoura e 1 kg de "outras" hortaliças. (Folha de São Paulo, 12-9-2007)

 

Ralear a sopa não implica

diminuir a quantidade

dos ingredientes que a compõem,

que lhe dão corpo e densidade.

 

Diminuir pode ser também

acrescentar ao alimento,

isto é, deitar água à medida,

tornando ralo o seu cimento.

 

Isso apaga o incêndio da sopa

e acende o fogo da ambição,

que às vezes grassa tanto mais

quanto mais água há na ignição.

 

15-9-2007

 

 

 

DAR E NÃO DAR

 

Cozinheiras de três escolas municipais da zona leste de São Paulo afirmaram que ganham um prêmio para racionar comida nas unidades, revela reportagem publicada nesta terça-feira pela Folha... (Folha Online, 11-9-2007, http://www1.folha.uol.com.br/folha/educacao/ult305u327418.shtml)

 

Dar e não dar são dois extremos

de um mesmo dar que não se engana

na conta: o mesmo saldo exato,

mesma atitude muquirana.

 

Dar o que é pouco e racionado

(como quem toma ao dar, ou furta) –

é dar entre paredes, cercas,

dar com critério e rédea curta;

 

o que às vezes é como não

dar ou nem dar, que distribui

uma ponta, um farelo, um grão,

que a quem recebe diminui.

 

Quem de dar pouco tira um prêmio,

isto é, faz disso o seu cenário

(ou o seu teatro) e se compensa:

e dá, sempre, mas ao contrário –

 

vai enchendo a parte vazia

do que era necessário encher,

enchendo-a de um vazio cheio

que tanto mais pode conter;

 

enquanto, da outra parte, enchendo

um vazio que se esvazia

quanto mais se enche de si mesmo,

enche só como quem desvia;

 

porém sem nunca errar na conta,

porque sabe de onde tirar,

tirando de reter o prêmio,

fazendo de tirar um dar.

 

Dar e não dar são como espelhos,

ou como as pontas de um cordão:

de um lado a consciência limpa,

o correto do gesto e da ação,

 

mas do outro: o dar que não franqueia

ou que, dando como quem pede,

faz de dar um tirar aos poucos –

dar que mais toma do que cede.

 

11-9-2007

 

 

 

 A UM BLOGUEIRO DA INTERNET

 

I

 

Se não compreendes um assunto, fala dele.

Considera que o teu leitor o sabe menos.

Põe nisso convicção e duzentos venenos,

como um sapo que os traz ocultos sob a pele.

 

Publica só as cem cartas que te bajulam,

que afirmam concordar com tudo o que disseste.

E ignora as outras mil cuja opinião conteste

teu frouxo discorrer, onde os erros pululam.

 

Qualquer que seja a conveniência do argumento,

escolhe sempre o mais adequado ao momento.

Faze disso um mister ou uma profissão.

 

E, quando a obscura voz da verdade te sonde,

não penses outra vez, mas de pronto responde

que exerces tua liberdade de expressão.

 

 

II

 

Qualquer que seja o caso – ou claro, ou duvidoso –,

mostra que tens sobre ele uma opinião formada,

que deve anteceder a própria coisa dada

(como um fruto de cera em prato luxuoso).

 

Sê firme em teu julgar e sempre imperioso,

dando a entender que tua fé não teme nada,

que foi o próprio céu que te mostrou a estrada,

que és pai de uma coruja e de Minerva esposo.

 

Não deixes que um qualquer, para bancar o tal

(nem o próprio Platão, nem seu melhor pupilo),

seja teu professor, mesmo que liberal.

 

Mas dize sempre que és livre para entender,

que ninguém pode te obrigar a compreender –

e que a verdade é só uma questão de estilo.

 

 

 

BAIRRO NOBRE

 

Foi-se ao trabalho. O dia todo cheio,

sem um minuto para distração –

que empresa não é jogo, nem passeio.

(E ainda pensam que é fácil ser patrão...)

 

Ela também tem uma ocupação –

embora não precise, e ele ache feio.

Dar aulas numa escola. Por que não,

se é preciso ir à luta, sem receio?

 

Lá dentro a velha pensa: “Que maçada!

Depois de tão comprida caminhada,

foi se casar com esse vira-lata!”

 

Passa um carro lá fora. E o menininho

aparece na porta: cópia exata

do burguesão, que é pai do burguesinho.

 

 

 

CONVITE PARA O ENFORCAMENTO

 

Vem-me por e-mail o convite

(enviado não sei por quem)

para assistir ao videoteipe

do enforcamento de Houssein.

 

Recebo-o com desatenção

e deito-o fora, mas no instante

em que o suprimo um pensamento

se equilibra em mim, hesitante.

 

Que cor é que se pôs aqui,

que não é só uma cor qualquer,

mas que de viva aguça em nós

esta ansiedade de saber,

 

que é mais que a ansiedade vulgar

que toda morte põe em curso,

a ponto de gerar o equívoco

de uma incerteza sem recurso?

 

Talvez se trate só da morte,

mas neste caso a morte é mais

que o espetáculo cotidiano

das mortes vulgares, normais;

 

talvez se trate de saber

que a morte aqui se disfarçou

em morte-objeto, a morte-coisa

cujo preço se calculou

 

segundo o apelo não do show

ou do alarido que se faz,

mas de um valor-morte, visível,

que o morto finge por detrás –

 

valor que, entanto, não esconde

o fato de na morte vista

(mesmo a mais cara e mais notória),

como um defeito que se enquista

 

sob a superfície domada

da cor e do disfarce, haver

um traço da outra morte: aquela

que é sempre vulgar e qualquer.

 

23-1-2007

 

 

 

DE MANCHETES E ERRATAS

 

"Essa história de manchetes enormes e uma errata desse tamanhinho, que ninguém lê, me parece um ato de absoluta arrogância." (Geraldo Grossi, Ministro do TSE)

 

É de supor que aquela parte

da verdade que lá não coube

e que ocupou pequeno espaço

na outra verdade que se soube,

 

quando editada ou corrigida

(se é que se pode corrigir

o que se chama de verdade,

sem desfigurar ou mentir –

 

sem inventar uma verdade

que à anterior se superponha,

como quem fala enquanto dorme

e trata por real o que sonha),

 

venha ocupar maior espaço

do que ocupou na outra ocasião,

justificando que se imprima

uma nota de correção.

 

Mas pode ser que às vezes faltem

à verdade que se corrige

o estofo, a consistência e o gosto

que de uma verdade se exige:

 

pode ser que a uma tal verdade

falte o peso que justifique

o esforço mesmo de escrever

uma errata que a retifique.

 

Então, nem tanto pelo escrúpulo

de dar a verdade à verdade,

mas de medir com parcimônia

o jeito, a forma, a densidade

 

que há de haver no medir palavras

com que se diz o que não deve

no dito adquirir novo peso

(maior que o primeiro que teve),

 

se faz que a errata não alcance

comprimento maior que aquele

que se deve dar ao não-dito,

cabendo inteira dentro dele:

 

se faz que tenha bom tamanho,

conforme o fiel que se utiliza,

sem desperdício da (já escassa)

verdade que se economiza.

 

out./2006

 

 

 

JINGLES DE CAMPANHA

 

Os jingles de campanha vão

dizendo com estrondo, com

uma espécie de bom humor

que é mais da intenção que do som –

 

que é como a isca com que se atrai

o eleitor-peixe, que se quer

pescar não com o anzol da espera,

mas com a tarrafa do que vier –,

 

que o candidato da comarca,

o benfeitor da freguesia

(parente do contraparente,

primo do sogro de uma tia),

 

é melhor do que o que está longe,

porque se enxerga menos mal,

tal como a obra de algum oleiro

que se dispõe sobre um jornal.

 

*

 

No “santinho” ele sempre exibe

um sorriso de quem se ri

da improvável e nada santa

coincidência de estar ali

 

(como quem foi ali lançado

por algum tiro de canhão

e, tendo suportado o impacto,

faz de tal coisa o seu refrão).

 

*

 

Talvez se pense que esse peixe

(o eleitor) – tão pouco assanhado

pela torrente-senador

ou pela maré-deputado

 

(mas que só se pesca aos cardumes) –,

por míope e surdo, necessite

de muito ruído que o desperte

e muito bom humor que o excite:

 

que seja peixe de água turva

ou que, lento, nade melhor

quando o atraem as rimas fáceis

e a grande cara num outdoor.

 

(Cara que, não nos iludamos,

nada tem de recife ou penha,

mas é móvel como as areias

ou antes, na pesca que a empenha,

 

como uma efígie do dinheiro:

familiar só para quem tem;

que, a flutuar na água em que pesca,

vai tão depressa quanto vem.)

 

*

 

Os jingles de campanha vendem

como se próximo o distante,

o que tem asas e se escapa,

batendo-as, leve, num instante.

 

Para atrair o peixe-voto,

dão-lhe por isca uma ave esquiva,

que, inerte sobre a superfície,

não se adivinha que está viva.

 

Quando esse peixe, cego e surdo,

mal consciente do que abocanha

e de que a isca é mais abundante

na estação de pesca, a campanha,

 

morde nada, ou só morde rede,

que é o que lá está para morder –

ave defunta e de papel,

mas bem capaz de se mover.

 

set./2006

 

 

 

UMA VISITA (FRUSTRADA) AO SÍTIO DE DRUMMOND NA INTERNET

 

No sítio de Drummond

não há nada para ler:

só as capas dos livros

e a vontade de ver

 

o que eles têm por dentro:

se Drummond, se poesia,

se o selo da editora

ou outra coisa fria

 

que não sei bem o que é,

mas que talvez lá exista

(escondida, no fundo,

como uma isca, uma pista

 

que nos leve a Drummond

e ao que lá fomos ver:

uma canção amiga,

um poema para ler).

 

Fui lá para saber

o que no sítio havia

(se é que em sítio de poeta

há mais do que poesia),

 

mas só o que encontrei

foi este enigma claro:

o livro todo capa,

a página anteparo.

 

1-5-2006

 

 

 

POEMA SOBRE COISA ALGUMA

 

Real e Barcelona empatam com gols dos Ronaldos

(Notícia publicada no Último Segundo, em 1/4/2006)

 

Dois Ronaldos fizeram empatar

o Real e o Barcelona:

 

quem vive em Barcelona

provavelmente sentiu o peso

 

do Barcelona empatado

ao Real

 

(e do Real empatado

ao Barcelona).

 

Culpa dos Ronaldos.

Não há coisa pior

 

do que dois Ronaldos.

 

 

 

O PICASSO DA PREVIDÊNCIA

 

I

 

Se luz de lâmpada ou lanterna,

de lamparina ou lampião,

de candeia, farol ou vela

não basta para tal função,

 

quem sabe a luz de algum incêndio

seja capaz de revelar

o que, por baixo do segredo,

nenhuma luz pôde mostrar,

 

conforme foi o que ocorreu

na Previdência, onde se viu

lavrar incêndio de tal monta

que ao menos isto descobriu:

 

entre os destroços do sinistro,

e a cinza, e os ferros retorcidos,

e mil retalhos de papel

que eram indícios carcomidos

 

de decisões por empreender,

intrincadas como novelos,

e outros fragmentos destroçados

(expressivos como cabelos)

 

de alguns processos encrencados,

e outras coisas de erro e embaraço –

a inusitada maravilha

de um quadro de Pablo Picasso.

 

 

II

 

Resta entender o que um Picasso

teria ido lá fazer,

no lugar onde se investiga,

onde tudo se há de saber.

 

Se falso, quem tomou a idéia

e tal proeza realizou

de ocultá-lo, deixando-o exposto,

conforme a sugestão de Poe,

 

na parede de um escritório,

aonde o fogo não ascendeu,

como a poupá-lo da catástrofe

que sobre o resto se abateu –

 

como uma espécie de brasão

adequado não tanto à idéia

da idoneidade do lugar

(da boa fé de quem a creia),

 

mas do enigma por revelar

e o que mais da curiosidade

que busca o fundo e o quer trazer

à luz difícil da verdade.

 

(De onde se tira a conclusão

de que, mais que a luz da justiça,

por imóvel, às vezes quadra

uma luz ágil, movediça.)

 

 

III

 

Se autêntico, se verdadeiro,

resta saber quem o comprou

e, amante da arte e do moderno,

numa parede o pendurou

 

e por que o fez: se por mostrar

que ao rigor e à severidade

se deve acrescentar o toque

de alguma sensibilidade;

 

ou se apenas para dizer

a quem de pasmo e de interesse

que nem tudo é conforme a fé

o supõe ou como parece;

 

que por debaixo do visível

há sempre um plus ou um sobejo

a implicar o significado

do real objeto do desejo,

 

o qual, dispendioso, contrasta

com o que haja ali por contrastar

e, opulento, passa distante,

sem em seu curso tangenciar

 

a curva magra da justiça,

com seus caminhos, suas rotas,

que apascenta e, com mão de ferro,

distribui a miséria em gotas.

 

(janeiro/2006)

 

 

 

À MARGEM DA ATUAL SITUAÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA

 

Os justos mordem os injustos

de um modo límpido, oficial,

utilizando-se dos dentes

que lhes concede o tribunal.

 

Certos de que só desse modo

é que se extirpará o caroço

de mal que empesta a carne, mordem

mais fundo – até o limite do osso.

 

(Outrora se fazia assim

nos tribunais da salvação,

talvez com um pouco mais de arrojo

e violência na incisão.)

 

Se acaso mordem outro justo

com dentes que a justiça deu

(e após dizem que foi o dente

e não a boca que mordeu),

 

cospem por cima uma saliva

de preceptivas e morais

com que pensam cauterizar

as chagas novas, naturais.

 

Por não morder-se mutuamente

ou só morder o que convém,

deixando intacto tudo aquilo

que a justiça distingue bem,

 

não procedem conforme a grega

razão costuma prescrever:

isto é, primeiro dando à luz

o que antes não se pôde ver;

 

mas vão espalhando ao redor

uma poeira de intenções,

de bons propósitos, de sãos

desígnios, justificações,

 

que só se expressa em oratória,

e em gestos amplos, tribunícios,

que a outros olhos talvez pareçam

mais adequados aos comícios.

 

Vão lançando uma rede larga

e de malha fina em que o peixe

da opinião pública se enreda

(conforme o engodo que se deixe):

 

pois pouco importa a claridade

que a vista possa pretender:

importa o imperativo do ato,

a missão nobre de morder.

 

(agosto/2005)

 

 

 

DESCONSTRUINDO O DEPUTADO

 

A situação tomou a peito

desconstruir o deputado

e o faz virando pelo avesso

o que não tem avesso ou lado:

 

apanha um fio e logo faz

com ele vir o pano todo,

e então com o fio que puxou

amarra-o, prende-o de algum modo.

 

Mas esse peixe, que não cabe

na própria rede que o captura,

viscoso, logo se escapole

e salta a outra maior altura.

 

(Quem é que agarra tal salmão

no fluxo louco da corrente

e diz que nada na verdade,

ou diz que trama, e diz que mente?)

 

A oposição, porém, segura

de que tem contas a acertar

não com o difícil deputado,

mas com quem o esteja a enredar,

 

trata de reconstruí-lo, armando

de nova linha o mesmo tear:

e o faz levando mais para o alto

o peixe que não quer pescar.

 

(Ou põe de volta cada carta

que a situação embaralhou

e vai – Penélope – ao encontro

de um Ulisses que não voltou.)

 

E arrepanha, e alinhava, e cirze

essa esperança de tecido

com que há de reparar os furos

do deputado desconstruído.

 

(E aplica nisso tal fervor

que em cada ponto que se esgarça

mal se descobre a cosedura

do sério ou o remendo da farsa.)

 

E o deputado, por seu turno,

ave ou salmão que se desvia

de cada língua que o bajula,

de cada farpa que o desfia,

 

lá paira, enigma ou charadista –

inacessível como um céu

à situação, que nunca o viu,

à oposição, que já o perdeu.

 

30-6/1-7-2005

 

 

(Poemas e crônicas de Renato Suttana)

 

Leia também, de Renato Suttana, o livro de crônicas Adendos e espinhos (clique para informações)

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