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COISAS
DE PANTAGRUEL
(Nicolau
Saião)
Não
percebo nada de cozinha. Emendo: creio que não entendo nada de
culinária, o que bastante me pesa.
Os prestígios secretos da pimenta, do sal, do
cravo-de-cabecinha; as magnificências do colorau e dos cominhos
escapam-me, por meu mal, completamente. Por outro lado, até hoje, o
único prato que consegui confeccionar sem desdouro de Mestre Cuca
foram uns ovos com ervilhas em estilo cometa... que ninguém,
saiba-se lá porquê, apeteceu consumir.
Sou
pois, como preparador de regalos e de acepipes, aquilo a que
propriamente se chama um fracasso e estou em crer que se algum
empresário da nova vaga, um desses dinâmicos patrões que se
encomendam a Zeus e a Mamon, tivesse a infeliz idéia de me
contratar como chefe de restaurante, depressa faria fugir a sete pés
todos os comensais que eventualmente me caíssem em frente do
guardanapo.
Isso
não significa, contudo, que não seja capaz de apreciar a boa
mesa...
Já
se sabe que para se aquilatar do gosto duns ovinhos mexidos não é
indispensável ser-se galinha, assim como para se distinguirem as
saborosas nuances de um chispe não é imprescindível pertencer-se à classe suína,
posto que saiba que anda por esse mundo fora muito leitão a tentear
a mestrança de perito em paladares: o que é sem dúvida legítimo,
desde que se mantenham nos limites gustativos da bolota e do maceirão.
Para
mim, que tenho pinta de gourmet como dizem os franceses, que
nisto de comidas ninguém lhes leva a palma, o frango do campo não
é necessariamente inferior à galinhola ou ao pato, o esturjão
remolhado não se avantaja à pescada bem fritinha, de rabo na boca
ou com todos os matadouros. Cá me lembra por exemplo, com saudades,
uma pratada de enguias que devorei em Vila Franca, assim como não
me esqueço dos prazeres que em Reguengos de Monsaraz me provocou o
maroto dum coelho todo envolto em vinha de alhos.
Eu
considero que há vegetais e vegetais... Todavia, virem-me com a estória
de que a couve é sempre melhor que a cenoura é balela que eu não
engulo...
Bem
sei que a couve contém elementos que a tornam recomendável: ele é
o ferro, os sais minerais diversos, a vitamina H ou Z, o diabo; mas
para mim as cenouras, desde que tratadas com discernimento e
suavidade, não se lhe ficam atrás. Além do mais consta que fazem
bem à vista. E havendo nestes tempos tanto omnívoro meio-cegueta,
verifica-se que não são elas um legume para deitar no lixo ou no
esquecimento.
Confesso
que tenho um fraco pela batata. Isso parece-me lógico: a batata é
o pão dos pobres e eu sou de origem humilde. Radico pois tal preferência
num hábito hereditário que me deve ter deixado marcas nas papilas
e nos refegos interiores do estômago. Mas alto! Que não são todas
as batatas que me agradam: bem preparadas as quero, sem grelos nem
pontos negros. Se cozidas, que se desfaçam na boca; se fritas, que
estalem sob os dentes; se assadas, que transportem ao palato o fino
olor místico da salsa e do cebolão.
O
que menos me agrada numa batata é que seja envinagrada, farinhenta,
torpe como nascida das pedras ou com sabores menos filhos da terra
úbere que do super-mercado às três pancadas.
Quanto
a aves, tenho conhecido muitos passarinhos fritos que mais se
parecem com pássaros bisnaus. Mas se a avezinha, qualquer que ela
seja, estiver cozinhada com mão de mestra, eis que quase se sente
esvoaçar no ventre - tão leve e saborosa se achou ao rés do fogo.
Nunca
devemos esquecer-nos que uma iguaria, para o ser, não deve ter o
lume por demasiado violento ou excessivo: é que os pitéus, tal
como os homens, parece não se darem bem com o que é rude em
extremo. E é bem natural que a carcaça de um peru se queixe, tal
como noutras circunstancias um qualquer ser humano faria.
Nunca
gostei de santolas. Aliás, o marisco em geral deixa-me frio: tem
muita casca e pouca carne, é caro e anda para trás como o
caranguejo. E eu tenho para mim que às arrecuas não se vê bem o
caminho: às vezes até se cai de cabeça ou de joelhos, sem mesmo
se ter tempo para antes do trambulhão se pronunciar um deus me
acuda protector. Por isso, o único marisco que aprecio é a
ostra, pois por vezes tem lá por dentro a maravilha de uma pérola.
Quanto
a licores só gosto dos generosos. Os espirituosos quase sempre não
têm espírito nenhum, até se parecem com um actor de teatro luso,
certo crítico au pair ou algum comentador de televisão. E
se pelos vinhos se entrevê a alma dum povo, então desejo com ganas
que o nosso se vá parecendo mais com um porto que com um uísque,
mais com um colares que com um vodca, mais com um madeira que com um
cognac. E que não tenha o álcool
muito fraco, pois que é dele que lhe advém a generosidade e a
altivez.
Das
frutas prefiro a cereja, o pêssego, a laranja. Não gosto nada de pêra
e quanto à banana já lá vai o tempo em que muita gente a tinha
quase de graça, de exportação africana. Agora, coitadinhos,
ficaram votados às bananas dos outros, à ameixa e às pevides de
melão...
Não
falarei nas sobremesas, que nisso não tenho preferências de
assinalar. Sou ao contrário dos romanos, que quase invadiam um país
só para lhe raparem os bolos e os doces ancestrais. Aliás, as
sobremesas são petisco pouco sólido e que ainda por cima vem no
fim do repasto, quando os apetites já estão fartos e os convivas
repletos. E a nós, apreciadores esclarecidos, o que nos caracteriza
é o que a todos os humanos convém: não se encherem muito as panças,
não se ceder ao empanturramento, pois que de indigestões e de
fartanços estão as covas cheias e as sociedades saturadas.
E
na cozinha, como em tudo, é necessário manter o bom-senso. Não vá
daqui àmanhã querer-se comer e só nos restar uma côdea ao
cantinho da gaveta…
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