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UM
CAVALEIRO NO CÉU
(Ambrose
Bierce)
1
Por
uma tarde ensolarada do outono de 1861, um soldado jazia deitado em
meio a uma moita de loureiros junto a certa estrada no oeste de Virgínia.
Estava deitado de bruços, as pontas dos pés tocando o chão, a
cabeça apoiada no antebraço esquerdo. A mão direita, estendida,
segurava frouxamente o rifle. Porém, dada a disposição algo metódica
de seus membros, e um vago movimento rítmico da cartucheira no
dorso do cinturão, se poderia pensar que estivesse morto. Dormia em
seu posto de vigilância. No entanto, se detectado, morreria
imediatamente, sendo a morte a penalidade legal para esse crime.
A
moita de loureiros na qual jazia o criminoso situava-se no ângulo
de uma estrada que, após ascender a pino em direção ao sul até
aquele ponto, dobrava bruscamente para oeste, correndo sobre a
crista por talvez uma centena de jardas. Daí virava para o sul
outra vez e ziguezagueava para baixo através da floresta. Na saliência
daquele segundo ângulo havia uma grande rocha achatada, que se
projetava para o norte por sobre o vale profundo de onde subia a
estrada. A rocha coroava um alto precipício: uma pedra atirada de lá
cairia por uns bons mil pés antes de atingir o topo dos pinheiros.
O ângulo onde se encontrava o soldado ficava na outra ponta do
precipício. Se estivesse desperto, teria uma ampla visão não só
do curto trecho de estrada e do rochedo eminente, mas também de
toda a face do abismo por baixo dele. Poderia ter uma vertigem ao
olhar.
Árvores
cobriam a paisagem por toda parte, falhando apenas ao pé do vale,
ao norte, onde havia um pequeno descampado; através dele fluía um
regato que mal se avistaria da orla do vale. Essa área descoberta
pareceria pouco maior que um pátio de entrada comum, mas tinha de
fato muitos acres de extensão. Seu verde era mais vivo do que o da
floresta circundante. Para além dele erguia-se uma linha de
gigantescos despenhadeiros, semelhantes àquele em que nos postamos
agora para observar essa cena selvagem, e em meio a eles a estrada,
de algum modo, conseguia galgar até o cimo. Com efeito, a configuração
do vale era tal que, deste ponto de observação, pareceria
inteiramente enclausurado; e se poderia perguntar de que maneira a
mesma estrada que levava para fora dele penetrava nele, e de onde
vinham e para onde iam as águas do regato que atravessavam a
campina a mais de mil pés abaixo.
Cenário
algum seria tão selvagem e difícil, mas os homens farão dele um
teatro de guerra. Ocultos na floresta, ao pé daquela ratoeira
militar, onde meia centena de homens guarnecendo as saídas teriam
obrigado um exército inteiro a se render por inanição, havia
cinco regimentos da Infantaria Federal. Tinham marchado durante todo
o dia e durante toda a noite anterior e agora descansavam. Ao cair
da noite retornariam à estrada, subiriam até o lugar onde sua
sentinela irresponsável estava dormindo e, descendo pelo outro
lado, se lançariam sobre o acampamento inimigo por volta da
meia-noite. Depunham esperança na surpresa, pois a estrada conduzia
à retaguarda do acampamento. Em caso de fracasso, sua posição
teria sido perigosa em extremo. E certamente falhariam, se algum
acidente ou vigilância notificasse o inimigo a respeito desse
movimento.
2
A
sentinela adormecida na moita de loureiros era um jovem de Virgínia,
chamado Carter Druse. Era filho único de pais ricos e tinha
desfrutado das facilidades, do cultivo e do alto padrão de vida que
a riqueza e o gosto são capazes de proporcionar na região
montanhosa a oeste de Virgínia. Sua casa ficava a poucas milhas do
local onde ele estava agora. Certa manhã ele se levantou da mesa,
após o café, e disse, em tom compenetrado e grave:
–
Pai, um
regimento da União chegou a Grafton. Vou me juntar a ele.
O
pai ergueu a cabeça leonina, olhou em silêncio para o filho
durante um momento e respondeu:
–
Bem, vá, meu senhor. E, aconteça
o que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu
dever. A Virgínia, para a qual você é um traidor, deve passar sem
você. Se vivermos até o fim da guerra, falaremos mais tarde sobre
o assunto. Sua mãe, como o médico informou a você, se encontra
numa situação bastante crítica. No máximo, poderá estar entre nós
por mais algumas semanas, mas esse tempo é precioso. Seria melhor não
perturbá-la.
Então
Carter Druse, fazendo uma reverência ao pai, que correspondeu à
saudação com uma cortesia altiva em que se ocultava um coração
partido, deixou o lar de sua infância para se alistar. Pela consciência
e pela coragem, por atos de devoção e de audácia, ele logo se
tornou respeitado entre os camaradas e os oficiais. E era a essas
qualidades e a certo conhecimento da região que devia agora ter
sido selecionado para a presente e perigosa tarefa na posição
extrema. Entretanto a fadiga foi mais forte que sua resolução, e
ele adormeceu. Que bom ou mau anjo veio num sonho despertá-lo de
seu estado criminoso, ninguém saberá. Sem o menor movimento, sem
um som, no profundo e lânguido silêncio da tarde, algum mensageiro
invisível do destino tocou com o dedo os olhos de sua consciência;
sussurrou no ouvido de seu espírito a misteriosa palavra do
despertar que nenhum lábio humano jamais pronunciou, nenhuma memória
humana jamais recordou. Ele levantou devagar a fronte, que se
apoiara no braço, e olhou através da camuflagem dos ramos de
loureiro, fechando instintivamente a mão sobre a coronha do rifle.
Sua
primeira sensação foi a de um extremo deleite artístico. Num
portentoso pedestal, o precipício – imóvel na extremidade da
rocha superior e nitidamente recortado contra o céu –, via-se uma
estátua eqüestre de impressionante dignidade. A figura do homem
completava a figura do cavalo, rígida e marcial, mas com o repouso
de um deus grego esculpido no mármore que limita a sugestão de
atividade. O traje cinzento se harmonizava com o fundo aéreo; o
brilho metálico dos equipamentos e dos jaezes era amenizado e
suavizado pela sombra; a pele do animal não tinha pontos de luz
excessiva. Uma carabina drasticamente amputada estava presa ao
cocuruto da sela, segura em seu lugar pela mão direita que a
sustinha pelo gatilho; a mão esquerda, segurando a rédea, estava
invisível. Silhuetado contra o céu, o perfil do cavalo se
recortava com a nitidez de um camafeu; olhava através das alturas
em direção aos precipícios lá adiante. O rosto do cavaleiro,
voltado para outra banda, deixava entrever apenas um princípio de têmpora
e de barba. Olhava para baixo até o fundo do vale. Aumentado pela
sua elevação contra o céu e pela sensação patente, que o
soldado experimentou, da grandeza de um inimigo próximo, o grupo
pareceria de um tamanho heróico, quase colossal.
Por
um instante Druse teve uma sensação estranha, meio indistinta, de
ter dormido até o fim da guerra e de estar olhando para um nobre
trabalho de arte erguido sobre aquele píncaro para comemorar os
feitos de algum passado heróico do qual ele teria sido um
participante inglório. A sensação foi dispersada por um sutil
movimento do grupo: o cavalo, sem mover as patas, afastara o corpo
ligeiramente da borda, sendo que o homem permaneceu imóvel como
antes. Cada vez mais desperto e consciente da situação, Druse
apertou a coronha de seu rifle contra o queixo e enfiou com cuidado
o cano por entre os arbustos. Armou o cão, olhando através da
mira, e visou um ponto vital no peito do cavaleiro. Um toque no
gatilho, e tudo estaria bem com Carter Druse. Nesse instante, o
cavaleiro voltou a cabeça e os olhos na direção de seu adversário
oculto – pareceu fitar mesmo em seu rosto, em seus olhos, em seu
coração bravo e apaixonado.
Será
tão difícil matar um inimigo na guerra – um inimigo que
surpreendeu um segredo vital à segurança de alguém e de seus
camaradas – um inimigo mais formidável pelo que sabe do que todo
um exército por seus números? Carter Druse empalideceu: seus
membros tremeram, falharam; e ele viu o grupo escultural à sua
frente, como figuras negras que subiam, caíam, oscilavam em arcos
de círculos sobre um céu de sonho. Sua mão se afastou da arma,
sua cabeça caiu lentamente até que o rosto repousou sobre as
folhas em meio às quais ele jazia. A intensidade da emoção quase
fez desmaiar esse soldado corajoso e robusto.
Não
durou muito. No momento seguinte seu rosto se ergueu da terra, suas
mãos retornaram ao rifle, seu indicador buscou o gatilho. Mente,
coração e olhos estavam limpos, conscientes, e a razão era clara.
Não havia esperança de capturar aquele inimigo. Alarmá-lo teria
sido apenas remetê-lo de imediato ao acampamento com sua notícia
fatal. O dever do soldado era estrito: o homem tinha de ser alvejado
por emboscada – sem aviso, sem preparação espiritual, quando
muito com uma prece tácita, antes de ser liquidado. Mas não – há
uma esperança: ele pode não ter descoberto nada, talvez esteja
apenas admirando a sublimidade do cenário. Se permitido, daria meia
volta e galoparia descuidado em direção ao lugar de onde viera.
Com certeza, será possível julgar, no instante de sua retirada, o
quanto saberá. Pode até ser que a fixidez de sua atenção –
Druse voltou a cabeça e olhou para as profunduras lá embaixo, como
quem olha da superfície para o fundo de um mar translúcido. Viu
galgar através da campina verdejante uma linha sinuosa de figuras
de homens e de cavalos – algum comandante imbecil estaria
permitindo aos soldados de sua escolta dar água aos animais à
vista aberta e plena de uma dúzia de picos!
Druse
desviou os olhos do vale e os fixou outra vez sobre o grupo de homem
e cavalo no céu, e outra vez através da mira do rifle. Mas desta
vez seu alvo estava no cavalo. Em sua memória, como um mandado
divino, soaram as palavras de seu pai quando partiu: “Aconteça o
que acontecer, faça aquilo que você concebe como sendo o seu
dever.” Estava calmo agora. Seus dentes se fecharam com firmeza,
mas não rigidamente. Seus nervos estavam tranqüilos como os de um
bebê que adormeceu; sequer um tremor agitava um único músculo de
seu corpo. Sua respiração, suspensa até então no ato de mirar,
tornou-se regular e lenta. O dever prevaleceu. O espírito disse ao
corpo: “Paz, fique quieto.” Atirou.
3
Um
oficial da Força Federal, o qual, num espírito de aventura ou de
busca de conhecimento, tinha deixado o bivaque escondido no vale e,
um tanto a esmo, abrira caminho até a extremidade mais baixa de um
pequeno espaço aberto ao pé do precipício, considerava o que
teria a ganhar se levasse mais longe a exploração. À distância
de um quarto de milha em frente, mas aparentemente ao alcance de uma
pedrada, elevava-se da franja dos pinheiros a gigantesca face da
rocha, atingindo uma altura tal que lhe daria vertigem olhar para
cima em direção à linha escarpada e aguda que se recortava contra
o céu. Seu perfil se apresentava claro e vertical contra o azul do
céu, indo até um ponto mais abaixo, acompanhado das colinas
distantes, pouco menos azuis, e daí seguia até os topos das árvores
na sua base. Levantando os olhos para a estonteante altitude do
cimo, o oficial teve uma visão estarrecedora – um homem montado a
cavalo descia para o vale através do ar!
O
cavaleiro mantinha-se a prumo, bem ao modo militar, sentado firme na
sela, segurando com força as rédeas para controlar sua montaria
num salto tão impetuoso. De sua cabeça desnuda flutuavam longos
cabelos, saindo dela como fumaça. As mãos estavam ocultas pela
nuvem da crina levantada. O corpo do animal permanecia nivelado,
como se as quatro patas encontrassem o apoio da terra. Seus
movimentos eram como os de um galope selvagem, mas cessaram enquanto
o oficial olhava, todas as patas lançando-se para a frente, como no
ato de pousar após um salto. Mas isso era um vôo!
Cheio
de espanto e terror devido à aparição do cavaleiro no céu – e
quase se acreditando já o escriba escolhido de algum novo
Apocalipse –, o oficial se viu subjugado pela intensidade de suas
emoções. Suas pernas falharam, e ele caiu. Quase no mesmo
instante, ouviu o ruído dos galhos se partindo – um som que não
produziu eco –, e tudo se aquietou.
O
oficial se levantou, tremendo. A sensação familiar de uma canela
esfolada lhe restituiu a faculdades ofuscadas. Recompondo-se, correu
para baixo, afastando-se do sopé do penhasco, para um ponto onde
esperava encontrar o homem, o que não adiantou. No instante fugidio
de sua visão, sua imaginação fora de tal maneira arrebatada pela
graça, facilidade e intencionalidade aparente da maravilhosa
performance que não lhe ocorreu que a linha de marcha da cavalgada
aérea era diretamente para baixo e que os objetos de sua busca
poderiam ser encontrados bem ao pé do penhasco. Meia hora depois
ele retornou ao acampamento.
Esse
oficial era um sábio, que conhecia muito bem a hora de não contar
uma verdade incrível. Não disse nada sobre o que vira. Mas, quando
o comandante lhe perguntou se, em sua batida, descobrira qualquer
coisa de vantajosa para a expedição, respondeu:
–
Sim, senhor, não existe estrada para este vale a partir do sul.
O
comandante, que bem sabia, sorriu.
4
Depois
de atirar, o soldado Carter Druse recarregou o rifle e retomou a
vigilância. Mal se passaram dez minutos, e um sargento dos federais
engatinhou com cautela até ele. Druse não se voltou, nem olhou
para ele, mas permaneceu imóvel, sem dar sinal de reconhecimento.
–
Você atirou? – murmurou o sargento.
–
Sim.
–
Em quê?
–
Num cavalo. Estava sobre aquela pedra – bem ali. Mas não está
mais lá. Voou para o precipício.
A
cara do homem estava branca, mas ele não mostrava outros sinais de
emoção. Tendo respondido, desviou os olhos e não disse mais nada.
O sargento não entendeu.
–
Olhe aqui, Druse – disse, depois de um silêncio –, é melhor não
fazer mistério. Ordeno que dê o relato. Havia alguém sobre o
cavalo?
–
Sim.
–
Então?
–
Meu pai.
O
sargento se levantou e se afastou.
–
Deus do céu! – disse.
(Traduzido
por Renato Suttana)
(Ambrose
Bierce)
1
Sabe-se
que a velha mansão Manton é assombrada. Pessoa alguma de
mentalidade aberta duvida disso. A incredulidade restringe-se a
esses indivíduos de opinião que ainda serão chamados de excêntricos
tão logo a palavra penetre nos recessos intelectuais do Marshall
Progressista. A evidência de que a casa seja assombrada é de
dois tipos: o parecer de testemunhas desinteressadas, que alegam
provas oculares, e aquele da própria casa. O primeiro pode até ser
dispensado ou tratado com os vários níveis de objeção que os
mais engenhosos costumam evocar nesses casos. Mas fatos que
concernem à observação de todos são materiais e controláveis.
Em
primeiro lugar, a mansão Manton não tem sido ocupada por mortais há
mais de dez anos, e suas fachadas se acham em lento estado de
deterioração – uma circunstância que, por si mesma, os
judiciosos não se atreverão a ignorar. Situa-se um pouco fora da
extremidade mais solitária da estrada que liga Marshall a Harriston,
num descampado que um dia foi uma fazenda e que se acha agora
desfigurado pelas ruínas de uma cerca apodrecida e meio coberta
pelos espinheiros que infestam um solo pedregoso há muito esquecido
pelo arado. A casa mesma se encontra num estado tolerável de
conservação, embora muito manchada pelo tempo e a carecer dos
cuidados de um vidraceiro – a população masculina menor da região
tendo atestado, à sua maneira, certa desaprovação quanto ao fato
de haver ali uma residência sem residentes. De formato quase
quadrado, tem dois pavimentos e a entrada cortada por um portal que,
de cada lado, uma janela de rótulas altas guarnece. Janelas
correspondentes na parte de cima, não protegidas por rótulas de
madeira, permitem a entrada de luz nos cômodos do pavimento
superior. Grama e ervas crescem livremente por toda parte e algumas
árvores copadas, que canalizam o vento, e todas inclinadas numa só
direção, parecendo fazer um esforço conjunto para fugir. Em suma,
como o humorista de Marshall explicou nas colunas do Progressista,
“a proposição de que a mansão Manton é assombrada é a única
conclusão lógica das premissas”. O fato de que, nessa casa, o
sr. Manton julgou por bem, certa noite, se levantar da cama e cortar
as gargantas de sua esposa e de seus dois filhos pequenos,
mudando-se em seguida para outra parte do país, ajudou sem dúvida
a despertar a atenção do público para a perfeita adequação do
lugar aos fenômenos sobrenaturais.
A
essa casa, numa tarde de verão, chegaram quatro homens numa carroça.
Três deles apearam imediatamente, e o que conduzia a carroça
amarrou o cavalo ao único mourão remanescente do que fora outrora
uma cerca. O quarto permaneceu na carroça.
–
Venha –
disse um
dos companheiros, aproximando-se dele, enquanto os outros se
afastavam em direção à casa. –
Este é o lugar.
O
interpelado não se moveu.
–
Por Deus –
disse rudemente –,
isso
é uma peça, e me parece que vocês estão preparando alguma.
–
Talvez
eu esteja – o outro disse, olhando-o no rosto e falando num tom
que continha uma ponta de desprezo. –
Você se lembrará, porém,
de que a escolha do lugar foi deixada, com o seu próprio
assentimento, para o oponente. Obviamente, se está com medo de
fantasmas...
–
Não
estou com medo de nada – o homem interrompeu com uma praga, e
saltou para o chão.
Os dois então se juntaram aos outros na porta,
que, com dificuldade, devido à ferrugem da fechadura e das dobradiças,
já tinha sido aberta por um deles. Entraram. Estava escuro por
dentro, mas o homem que destrancara tirou do bolso uma vela e fósforos
e acendeu uma luz. Então, destrancou uma porta à direita, enquanto
os outros aguardavam. Isso lhes permitiu entrar num cômodo amplo,
quadrado, que a vela iluminou precariamente. Uma camada espessa de
poeira cobria o piso, abafando em parte o ruído de seus passos.
Havia teias de aranha por todos os cantos, pendentes do teto como
longas tiras podres que fizessem movimentos ondulatórios no ar
perturbado. O cômodo tinha duas janelas em ângulos adjacentes, mas
através delas nada se podia avistar senão a madeira interna dos
pranchões, a poucas polegadas do vidro. Não havia lareira, nem mobília.
Não havia nada, a não ser teias de aranha e poeira. Os quatro
homens eram os únicos objetos ali que não faziam parte da
estrutura.
Pareciam
bem estranhos à luz amarelada da vela. Aquele que apeara com relutância
era singularmente espetacular – poderia mesmo ser chamado de
sensacional. De meia idade e compleição robusta, o peito fundo e
os ombros largos, olhando-se para a sua figura se diria que tinha a
força de um gigante; e, olhando-se para sua aparência, que a
usaria como um gigante. Estava barbeado, os cabelos cinzentos
aparados rente ao crânio. Sua testa baixa era vincada de rugas em
cima dos olhos, rugas que se tornavam verticais ao redor do nariz.
As pesadas sobrancelhas negras seguiam o mesmo padrão, exceto ao se
curvarem para cima no que, de outro modo, teria sido seu ponto de
contato. Afundados por baixo bruxuleavam dois pares obscuros de
olhos de cor incerta, mas certamente pequenos. Havia qualquer coisa
de ameaçadora na sua expressão, a qual não era ajudada pela boca
cruel e pelo queixo largo. O nariz parecia bem, como qualquer nariz,
até porque não se espera muito de narizes. Tudo o que havia de
sinistro na face desse homem parecia acentuado por uma palidez
desumana: era como se ele fosse totalmente exangue.
A
aparência dos outros era bastante comum: tratava-se de pessoas que
podemos encontrar por aí e esquecer que encontramos. Todos eram
mais jovens do que o homem descrito, que aparentemente não mantinha
boas relações com o mais velho dos três, o qual permanecia à
parte. Evitavam olhar-se um ao outro.
–
Cavalheiros –
disse o homem que segurava a vela e as
chaves –,
acho que tudo está
bem. Está pronto, sr. Rosser?
O
homem que se afastara do grupo acenou com a cabeça e sorriu.
–
E
você, sr. Grossmith?
O
pesadão acenou também, com uma carranca.
–
Façam
a gentileza de removerem seus trajes exteriores.
Chapéus,
paletós, coletes e lenços foram tirados e jogados através da
porta, no vestíbulo. O homem da vela fez um sinal com a cabeça, e
o quarto – aquele que incitara Grossmith a deixar a carroça –
sacou do bolso de seu sobretudo duas longas facas de caça, de aparência
mortífera, que extraiu das bainhas de couro.
–
São
exatamente iguais –
disse, estendendo uma para cada um dos
protagonistas; pois, a essa altura, até o mais obtuso observador
já teria entendido a natureza do encontro. Ia acontecer um duelo de
morte.
Cada
contendor apanhou uma faca, examinou-a com cuidado à luz da vela e
testou a resistência da lâmina e do cabo contra o joelho erguido.
Suas pessoas foram examinadas em seguida, cada uma por sua vez, pelo
auxiliar do oponente.
–
Se
lhe apraz, sr. Grossmith –
disse o homem que segurava a
luz –,
faça
o favor de ir posicionar-se naquele canto.
Indicou
o ângulo do cômodo mais distante da porta, para o qual Grossmith
se retirou, seu auxiliar se afastando também com um aperto de mão
que nada tinha de cordial. No ângulo mais próximo à porta, o sr.
Rosser se colocou de pé; e, após uma consulta cochichada, seu
auxiliar o deixou para se juntar ao outro perto da porta. Nesse
momento a vela se apagou bruscamente, deixando-os na mais profunda
escuridão. Isso poderia ter sido causado pelo deslocamento de ar da
porta aberta. Qualquer que fosse a causa, o efeito foi assustador.
–
Cavalheiros –
disse uma voz que soou estranha naquela nova situação, que afetava
as relações entre os sentidos –,
cavalheiros, não se movam
enquanto não tenham ouvido a porta externa se fechando.
Seguiu-se
um som de passos, e então a porta interna se fechou. E finalmente a
porta externa bateu com um estrondo que abalou todo o edifício.
Alguns
minutos mais tarde, o filho de um fazendeiro, que passava por ali a
desoras, avistou uma carroça leve que disparava furiosamente em
direção à cidade de Marshall. Declarou que atrás das duas
figuras do acento frontal havia uma terceira, de pé, com as mãos
agarradas aos ombros curvos dos outros, os quais pareciam lutar em vão
para se livrarem desse aperto. Essa figura, ao contrário das
outras, se vestia de branco, e teria sem dúvida subido na carroça
quando ela passou pela casa assombrada. Como o garoto podia se gabar
de considerável experiência anterior com o sobrenatural local, sua
palavra pesou como o testemunho de uma autoridade. A história (em
conexão com os eventos do dia seguinte) apareceu até no Progressista,
com ligeiros retoques literários e uma declaração conclusiva de
que os referidos cavalheiros teriam permissão de usar as colunas do
jornal para exporem sua própria versão da aventura noturna. Mas
esse privilégio nunca foi demandado.
2
Os
eventos que culminaram nesse “duelo no escuro” foram bastante
simples. Numa certa tarde três rapazes da cidade de Marshall
estavam sentados num canto sossegado da varanda do hotel do
vilarejo, fumando e discutindo esses assuntos que três rapazes
educados de um lugarejo do sul considerariam naturalmente
interessantes. Seus nomes eram King, Sancher e Rosser. A uma distância
que lhe permitia ouvir, mas sem tomar parte na conversa, sentava-se
um quarto. Os outros não o conheciam. Apenas sabiam que, ao chegar
na diligência naquela tarde, tinha anotado no registro do hotel o
nome de Robert Grossmith. Parece não ter falado com ninguém a não
ser com o funcionário do hotel. Dava mostras de não apreciar
nenhuma companhia a não ser a de si mesmo – ou, como se expressou
a equipe do Progressista, “amplamente dado às más
sociedades”. Mas, para sermos justos, seria preciso dizer, quanto
ao forasteiro, que a equipe estaria, ele mesmo, muito pouco
inclinado a julgar com isenção alguém que tivesse opiniões
diferentes, principalmente depois de ter experimentado uma pequena
decepção em sua tentativa de obter uma “entrevista”.
–
Odeio
qualquer tipo de deformidade numa mulher –
disse King –,
seja
natural ou... adquirida. Tenho uma teoria de que a todo defeito físico
corresponde o equivalente defeito moral e mental.
–
Infiro,
pois –
disse Rosser gravemente –,
que uma senhora a quem falte
a superioridade moral de um nariz estaria em maus lençóis se
quisesse tornar-se a sra. King.
–
É,
pode-se colocar dessa maneira – foi a resposta.
–
Mas, no duro,
uma vez joguei fora uma garota das mais atraentes só porque
descobri, acidentalmente, que ela tinha sofrido a amputação de um
dedo do pé. Minha atitude foi brutal, caso você queira; porém, se
eu tivesse me casado com aquela moça, teria me tornado infeliz para
o resto da vida, e a teria feito infeliz também.
–
Ao
passo que – disse
Sancher, com uma curta
risada –,
casando-se com
um cavalheiro de opiniões mais liberais, ela escapou com uma
garganta cortada.
–
Ah,
você sabe a quem me refiro. Sim, casou-se com Manton, mas nada sei
sobre sua liberalidade. Não tenho certeza, mas ele cortou a
garganta dela ao descobrir que lhe faltava aquela coisinha excelente
da mulher, que é o dedo médio do pé direito.
–
Olhem
para esse cara! – disse
Rosser, em voz baixa, os olhos fixos no
forasteiro.
“Esse
cara” estava, obviamente, ouvindo com atenção a conversa.
–
Que
impudência! –
murmurou King. –
Que faremos?
–
Muito
fácil – Rosser respondeu, levantando-se.
–
Senhor – continuou,
dirigindo-se ao forasteiro –,
penso que seria melhor que você
removesse sua cadeira para o outro extremo da varanda. A presença
de cavalheiros não é, com certeza, uma situação a que esteja
familiarizado.
O
homem saltou da cadeira e avançou com as mãos crispadas, as faces
brancas de raiva. Todos se colocaram de pé. Sancher deu um passo e
ficou entre os dois.
–
Você
é precipitado e injusto –
disse a Rosser. –
Este cavalheiro nada
fez para merecer tal linguagem.
Mas
Rosser se recusou a retirar suas palavras. Pelos costumes da região
naquela época, só uma conseqüência seria possível para a quizília.
–
Exijo
a satisfação devida a um cavalheiro –
disse o estranho, que se
acalmara um pouco. –
Não conheço ninguém nesta região. Talvez
você, senhor – e acenou com a cabeça para Sancher – fará
a gentileza de me representar nesta questão.
Sancher
aceitou o encargo, com alguma relutância, admitamos, pois a aparência
e as maneiras do homem não eram inteiramente do seu agrado. King,
que durante a conversa mal tirara os olhos do estranho, e que não
dissera palavra, consentiu, num aceno, em auxiliar Rosser. E o
desfecho foi que, ao se retirarem os protagonistas, um encontro
ficou combinado para a próxima noite. A natureza dos procedimentos
já estava estabelecida. O duelo de facas num cômodo escuro terá
sido certa vez um aspecto mais comum da vida do sudoeste do que
poderá voltar a ser algum dia. E o quanto era fina a camada da
verniz “cavalheiresco” que recobria a brutalidade essencial do código
a partir do qual tais encontros se tornavam possíveis é o que
veremos a seguir.
3
À
forte luminosidade de um entardecer de verão, a velha mansão
Manton mal se poderia conservar fiel às suas tradições. Era da
terra – terrena. O brilho do sol acariciava-a calorosa e
apaixonadamente, com evidente desprezo por sua má reputação. A
grama verde que se esparramava à sua frente parecia crescer não
desgrenhada, mas com exuberância natural e feliz, e as ervas
floriam como plantas ornamentais. Repletas de luzes atraentes e de
sombras e de pássaros de vozes agradáveis, as árvores copadas não
mais lutavam para fugir, mas se curvavam com reverência sob seu
fardo de sol e de cantorias. Mesmo nas janelas superiores, que não
tinham vidros, havia uma expressão de paz e contentamento,
proveniente da luz do interior. Através dos campos pedregosos o
calor visível dançava com vivo tremor, incompatível com a
gravidade que se atribui ao sobrenatural.
Esse
era o aspecto sob o qual o lugar se apresentou ao xerife Adams e aos
dois homens que tinham vindo de Marshall para dar uma olhada nele.
Um desses homens era o sr. King, o auxiliar do xerife; o outro –
que se chamava Brewer – era um dos irmãos da falecida sra. Manton.
Com base numa benéfica lei do Estado, relativa às propriedades
que, tendo sido abandonadas durante algum tempo por donos cuja residência
não se pôde localizar, o xerife era o responsável legal pela
fazenda Manton e pelas benfeitorias a ela pertencentes. Sua visita
atual era apenas para cumprir certa ordem da corte, perante a qual o
sr. Brewer litigava a posse da propriedade, na condição de
herdeiro de sua irmã doente. Por mera coincidência, a visita foi
feita no dia seguinte ao da noite em que o auxiliar King destrancara
a casa para um outro e bem diferente propósito. Agora, sua presença
ali não era um ato de escolha: tivera ordens de acompanhar seu
superior e, no momento, não podia pensar em nada mais prudente do
que uma simulada alacridade em obediência ao mandado.
Abrindo
com descuido a porta da frente, que para sua surpresa não estava
trancada, o xerife espantou-se de ver, sobre o piso do vestíbulo
para o qual ela dava entrada, um amontoado confuso de roupas
masculinas. O exame mostrou que consistia de dois chapéus e o mesmo
número de paletós, de coletes e de lenços, todos em ótimo estado
de conservação, não obstante um pouco sujos da poeira em que
jaziam. O sr. Brewer também ficou espantado, mas as emoções do
sr. King permaneceram misteriosas. Com um renovado interesse em suas
próprias ações, o xerife agora destrancava e empurrava a porta à
direita, e os três entraram. O cômodo estava aparentemente vazio
– não: quando seus olhos se acostumaram à fraca luminosidade,
alguma coisa se tornou visível no ângulo oposto da parede. Era uma
figura humana – a figura de um homem agachado a um canto. Qualquer
coisa na sua atitude fez os intrusos estacaram logo que cruzaram os
umbrais. A figura se definiu cada vez mais. O homem se apoiava sobre
um joelho, as costas apertadas contra o ângulo das paredes, os
ombros erguidos até o nível das orelhas, as mãos diante do rosto,
palmas para diante, os dedos abertos e crispados como garras. A face
pálida estava voltada para cima, sobre o pescoço contraído, com
uma expressão de indizível medo, a boca aberta, os olhos
arregalados. Estava morto. No entanto, com exceção da faca de caça,
que certamente teria caído de sua mão, não havia nenhum outro
objeto no cômodo.
Sobre
a poeira grossa que cobria o piso havia algumas pegadas confusas próximo
à porta e acompanhando a parede em que esta se abria. Também ao
longo de uma das paredes adjacentes, até para além das janelas
cobertas por tábuas, se via a trilha feita pelas pegadas do homem
antes de chegar àquele canto. Instintivamente, ao se aproximarem do
corpo, os três homens seguiram a trilha. O xerife agarrou um dos
braços estendidos: estava rígido como ferro, e a aplicação de um
pouco de força fez todo o corpo girar sem alterar a relação entre
as partes. Brewer, pálido de excitação, olhava atentamente para a
face contorcida.
–
Deus de misericórdia! – gritou de repente.
–
É Manton!
–
Você
tem razão –
disse King, numa mal
disfarçada tentativa de acalmar. –
Eu
conhecia Manton. Usava barba cheia e cabelos compridos na época,
mas é ele.
Poderia
ter acrescentado: “E eu o reconheci quando desafiou Rosser. Contei
a Rosser e a Sancher quem ele era, antes de lhe pregarmos esta peça
horrível. Quando Rosser deixou este cômodo escuro atrás de nós,
esquecendo suas roupas de tão excitado e se pondo a caminho, junto
conosco, em mangas de camisa – durante todos esses eventos sabíamos
quem era e com quem estávamos lidando, esse assassino covarde!”
Mas
o sr. King não disse nada disso. Com o máximo esforço, tentava
penetrar no mistério da morte desse homem. Que não tivesse se
afastado do canto onde estacionara; que sua postura não era nem de
ataque nem de defesa; que tinha deixado cair a arma; que,
obviamente, perecera devido ao profundo horror a qualquer coisa que
viu – essas eram circunstâncias que a perturbada inteligência do
sr. King não podia articular totalmente.
Tateando
na escuridão intelectual por uma pista que conduzisse para fora de
seu labirinto de dúvidas, seu olhar, dirigido mecanicamente para
baixo, como acontece quando ponderamos sobre assuntos graves, caiu
por acaso sobre alguma coisa que, à luz do dia e na presença de
companheiros vivos, o encheu de terror. No pó que se acumulara
durante anos sobre o piso, partindo da porta pela qual eles
entraram, atravessando o cômodo e parando à distância de uma
jarda do cadáver agachado de Manton, havia três linhas paralelas
de pegadas – leves mas bem definidas impressões de pés descalços;
as exteriores, de crianças pequenas; as interiores, de uma mulher.
Do ponto onde cessavam elas não retornavam: apontavam todas numa só
direção. Brewer, que as notara no mesmo instante, se inclinou para
a frente, pálido, numa atitude de absorção enlevada.
–
Olhem
para isso! –
gritou, apontando com ambas as mãos para a pegada
mais próxima, do pé direito da mulher, no ponto onde ela
aparentemente tinha parado. –
Falta o dedo médio. É Gertrude!
Gertrude
era a falecida sra. Manton, irmã do sr. Brewer.
(Traduzido
por Renato Suttana)
(Ambrose
Bierce)
O
fato de estar enterrado não parecia provar a Henry Armstrong que ele
tivesse morrido: sempre fora um homem difícil de convencer. Que ele
estivesse realmente enterrado o testemunho de seus sentidos o levava
a admitir. Sua postura – deitado de costas, as mãos cruzadas
sobre o estômago e atadas com alguma coisa que ele partiu
facilmente, sem melhorar muito a situação –, o confinamento
estrito de toda a sua pessoa, a escuridão negra e o silêncio
profundo, tudo isso compunha um corpo de evidência impossível de
contradizer; e ele o aceitava sem objeção.
Mas
morto – não. Ele estava apenas muito, muito doente. E tinha, além
disso, a apatia dos inválidos, sem se preocupar demais com o
destino incomum que lhe fora reservado. Não era filósofo –
apenas uma pessoa ordinária e rasa, dotada, naquele momento, de uma
indiferença patológica: o órgão do qual temia conseqüências
estava entorpecido. Assim, sem nenhuma apreensão particular quanto
ao seu futuro imediato, dormiu, e tudo estava em paz com Henry
Armstrong.
Mas
alguma coisa se passava logo acima. Era uma noite escura de verão,
rasgada por clarões ocasionais de relâmpagos que dardejavam contra
uma nuvem baixa, a oeste, anunciando tempestade. Essas iluminações
breves, balbuciantes, faziam aparecer, com nitidez espectral, os
monumentos e as lápides do cemitério, tal como se os colocasse
para dançar. Não era uma noite em que uma testemunha qualquer
pudesse, de modo crível, perambular por ali, de modo que os três
homens que lá apareceram, a cavar o túmulo de Henry Armstrong, se
sentiam razoavelmente seguros.
*
Dois
deles eram estudantes da faculdade de medicina, que ficava algumas
milhas adiante. O terceiro era um negro gigantesco, chamado Jess.
Por muitos anos, Jess tinha sido empregado no cemitério como uma
espécie de faz-tudo, e era o seu bordão favorito dizer que
conhecia “todas as almas do lugar”. Pela natureza do que estava
a fazer agora, inferia-se que o lugar não era tão populoso quanto
o registro o teria demonstrado.
Do
lado de fora do muro, numa parte distanciada da estrada pública,
estavam um cavalo e uma carroça a esperar.
O
trabalho de escavação não era difícil: a terra com que o túmulo
fora coberto poucas horas antes oferecia pouca resistência, sendo
logo retirada. Remover o esquife de dentro do nicho foi menos fácil,
mas não impossível, pois se tratava de uma habilidade de Jess, o
qual desparafusou a tampa com cuidado e a colocou de parte, expondo
o corpo com suas calças pretas e a camisa branca. Nesse exato
instante o ar se inflamou, o estrondo ensurdecedor do trovão abalou
o mundo, e Henry Armstrong se sentou tranqüilamente. Com gritos
inarticulados, os homens fugiram de pavor, cada um numa direção.
Por nada no mundo dois deles teriam sido persuadidos a retornar. Mas
Jess era de outra têmpera.
*
No
lusco do amanhecer, os dois estudantes – pálidos e exaustos do
terror e da ansiedade causados pela aventura precedente, que ainda
latejavam tumultuários em seu sangue – se encontraram na
faculdade de medicina.
–
Você viu? – gritou um deles.
–
Meu Deus, sim! Que vamos fazer?
Foram
até os fundos do edifício, onde viram um cavalo atrelado a uma carroça
e amarrado a um mourão junto à porta da sala de dissecação.
Entraram mecanicamente no cômodo. Sentado num banco, oculto pela
obscuridade, estava Jess. Levantou-se, sorrindo, todo olhos e
dentes.
–
Estou esperando pelo meu pagamento – disse.
Estendido
nu sobre uma mesa comprida jazia o corpo de Henry Armstrong, a cabeça
lambuzada pelo sangue e pela lama de uma pazada.
(Traduzido
por Renato Suttana)
(Ambrose
Bierce)
O
homem saiu da sombra para o pequeno círculo de luz de nossa
fogueira e se sentou numa pedra.
–
Vocês são os primeiros a explorar esta região – disse.
Ninguém
retorquiu a essa declaração. A prova do que dizia era ele mesmo,
que não pertencia ao nosso grupo e devia estar por perto quando
acampamos. Mais: devia ter companheiros nos arredores, pois aquele
não era lugar para se viver ou viajar sozinho. Por mais de uma
semana só tínhamos visto, além de nós mesmos e de nossos
animais, pequenos seres como lagartos e sapos de chifres. Num
deserto do Arizona não se coexiste por muito tempo apenas com essas
criaturas: precisa-se de ter animais de carga, suprimentos, armas
– “equipamento”, enfim. E tudo isso implica camaradas. Houve dúvida
quanto ao tipo de homens a que pertenceriam os camaradas desse
estranho que aparecera sem cerimônia, bem como, em suas palavras,
qualquer coisa tão impenetrável quanto um desafio, o que fez com
que nossa meia dúzia de “aventureiros” se sentasse, com as mãos
nas armas, numa atitude que significaria, dada a hora e o lugar,
ostensiva expectação. O estranho não prestou atenção e começou
a falar
de novo no mesmo tom deliberado e monótono com que
pronunciara a primeira frase:
–
Trinta anos atrás Ramon Gallegos, William Shaw, George W. Kent e
Berry Davis – todos de Tucon – atravessaram as montanhas Santa
Catalina em direção a oeste, avançando tanto quanto a configuração
do território o permitiria. Fazíamos prospecção, e nosso
intuito, se não achássemos nada, era seguir até o rio Gila, num
ponto próximo de Big Bend, onde supúnhamos haver um assentamento.
Tínhamos um bom equipamento, mas nenhum guia – só Ramon Gallegos,
William Shaw, George W. Kent e Berry Davis.
O
homem repetiu os nomes devagar e com nitidez, como se para gravá-los
na memória da audiência, cujos membros agora o observavam
atentamente, mas com uma ligeira apreensão quanto à possibilidade
de haver companheiros ocultos na treva que nos enclausurava como uma
parede negra. Na atitude desse historiador voluntário não havia
sugestões de qualquer propósito inamistoso. Seus modos eram mais
os de um lunático inofensivo do que os de um inimigo. Nem estávamos
tão desacostumados ao campo para ignorarmos que a vida solitária
de muito camponês tem uma tendência a desenvolver excentricidades
de conduta e de caráter que nem sempre se distinguem da aberração
mental. Um homem é como uma árvore: na floresta dos seus
semelhantes, ele crescerá tão reto quanto sua natureza genérica e
individual o permitir. Sozinho, em lugar aberto, cederá às pressões
e às torções deformadoras que o envolvem. Alguns desses
pensamentos me vieram enquanto eu observava o sujeito através da
sombra de meu chapéu, puxado para baixo a fim de quebrar a luz do
fogo. Um pobre imbecil, sem dúvida, mas o que estaria fazendo ali,
no coração do deserto?
Tendo
empreendido contar esta história, gostaria de poder descrever a
aparência do homem, o que seria natural. Infelizmente – ou
estranhamente – não me acho em condições de fazê-lo com
segurança, pois mais tarde nem sequer dois de nós concordaríamos
quanto ao que ele vestia e quanto à sua aparência. E, quando tento
ajuntar minhas impressões, elas me escapam. Qualquer um pode contar
histórias; a narração é uma das forças elementares da raça.
Mas o talento para a descrição é um dom.
Como
ninguém quebrasse o silêncio, o visitante prosseguiu:
–
Esta região não era o que é agora. Não havia sequer um rancho
entre o Gila e o Golfo. Havia alguma caça aqui e ali nas
montanhas, e perto dos raros olhos d’água havia grama suficiente
para impedir que os animais morressem de fome. Se tivéssemos a boa
sorte de não encontrar índios, podíamos ir passando. Mas, dentro
de uma semana, o objetivo da expedição mudou da descoberta de
riquezas para a preservação da vida. Tínhamos ido longe demais
para podermos retornar, pois o que estivesse à frente não seria
pior do que o que ficara para trás. Então continuamos, viajando à
noite, para evitar os índios e o calor intolerável, e nos
escondendo durante o dia, tanto quanto pudéssemos. Às vezes, depois
de esgotar nossas reservas de carne selvagem e de esvaziar nossos
cantis, passávamos dias sem comida e sem água. Então um olho d’água
ou um poço raso no fundo de um arroio restauravam de tal maneira
nossas forças e nossa sanidade que nos sentíamos em condições de
matar os animais silvestres, que também os procuravam. Às vezes
era um urso, outras um antílope, um coiote, um puma – o que Deus
provesse: tudo era alimento.
“Certa
manhã, quando batíamos uma linha de montanhas, procurando por
alguma passagem, fomos atacados por um bando de apaches que seguiram
nossa trilha até uma ravina, não muito longe daqui. Sabendo que
seu número era de dez para um contra nós, abandonaram suas
costumeiras precauções de covardia e caíram sobre nós a galope,
atirando e gritando. Lutar estava fora de questão: picamos nossos
fracos animais através da ravina, até onde houvesse piso para os
cascos; apeamos e subimos até o chaparral de um dos sopés,
abandonando todos os nossos pertences ao inimigo. Mas conservamos
nossos rifles, cada um de nós – Ramon Gallegos, William Shaw,
George W. Kent e Berry Davis.
–
O mesmo povo de sempre – disse o humorista de nosso grupo. Era um
homem do Leste, pouco familiarizado com as observâncias mais
decentes do convívio social. Um gesto de desaprovação de nosso líder
o fez silenciar; e o estranho prosseguiu com sua história:
–
Os selvagens desmontaram também, e alguns deles subiram pela
ravina, avançando para além do ponto onde a tínhamos deixado,
cortando qualquer retirada por aquela direção e forçando-nos para
o flanco. Infelizmente o chaparral se estendia só por uma curta
distância sopé acima, e quando chegamos à parte aberta no alto
recebemos o fogo de doze rifles. Mas os apaches atiram mal quando
estão com pressa, e Deus providenciou para que nenhum de nós fosse
atingido. Umas vinte jardas para o alto, no sopé, além da linha da
vegetação, havia despenhadeiros verticais, em meio aos quais se
via, bem à frente, uma estreita abertura. Corremos para ela,
desembocando numa caverna pouco mais larga do que um cômodo comum
de residência. Aqui, por algum tempo, estivemos a salvo: um único
homem com um rifle de repetição poderia defender a entrada contra
todos os apaches do lugar. Mas contra a fome e a sede não tínhamos
defesa. Coragem ainda tínhamos, mas a esperança era só uma
reminiscência.
“Nem
um só desses índios nós vimos mais tarde; mas pela fumaça e pelo
fulgor de suas fogueiras na ravina sabíamos que dia e noite eles
nos vigiavam, com os rifles prontos, na extremidade do mato. Sabíamos
que se tentássemos alguma coisa nenhum de nós viveria para dar três
passos além da abertura. Durante três dias, revezando a guarda,
nos agüentamos, até que o sofrimento se tornou insuportável. Então
– era a manhã do quarto dia – Ramon Gallegos disse:
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