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O
HAICAI NO BRASIL e o pioneirismo dos autores baianos
(Gustavo Felicíssimo)
O
Kasato Maru, primeiro navio a aportar no Brasil com imigrantes
japoneses, segunda a historiografia oficial em 18 de Junho de 1908,
trouxe consigo 165 famílias que vinham trabalhar nas fazendas de
café no oeste paulista, mas não a pedra fundamental do haicai no
Brasil.
É
sabido que o haicai é uma forma poética tipicamente japonesa muito
cultivada no mundo todo. Entretanto, no ocidente, sua divulgação
se deu por conta do francês Georges Boneau, com a publicação do
livro “La
Sensibilité Japonaise”, causando furor entre poetas franceses, alemães,
norte-americanos e também entre os brasileiros, opinião com a qual
concorda Goga Massuda, haicaísta japonês radicado
no Brasil e autor de “O haicai no Brasil”, livreto que desvenda
os caminhos do haicai pelas nossas terras desde o começo do século
passado até a década de 80.
Podemos
definir o haicai como sendo um poema que procura registrar um
acontecimento particular, uma impressão, um drama, uma paisagem,
referindo-se ao agora do poeta, de forma simples e com sentido
completo. Já os japoneses consideram o haicai como anotações
poéticas e sinceras de momento de elite, como diz Guilherme de
Almeida em entrevista publicada em 29 de Setembro de 1941, no
“Gazeta Magazine”, e reproduzida no boletim "Imprensa
Paulista", órgão informativo da Associação Paulista de
Imprensa, número 41, de julho/dezembro de 1980.
O
haicaísta mais conhecido no mundo é Matsuo Bashô (1644 – 1694),
ou simplesmente Bashô. Foi ele quem codificou e estabeleceu os cânones
do tradicional haicai japonês.
O
primeiro poeta a popularizar o haicai no Brasil foi justamente
Guilherme de Almeida, no início dos anos 30 do século passado. É
bastante conhecido seu ensaio “Os meus haicais”, publicado
originalmente no jornal “O Estado de São Paulo”, em 28 de
fevereiro de 1937, onde o poeta procura defender sua formulação poética.
Porém, os nossos haicaístas são unânimes em reiterar ao médico,
crítico literário, ensaísta e historiador baiano, natural de Lençóis,
Chapada Diamantina, Afrânio Peixoto (1875 – 1947), o marco
inicial do desenvolvimento do haicai no Brasil, pelo fato dele ter
publicado em 1928, na Revista Excelsior, um ensaio sobre essa forma
de poesia japonesa. Mais tarde tal ensaio foi utilizado na introdução
do seu livro “Miçangas”. Naquela época, em que se vivia o
Movimento Modernista, Afrânio defendia a naturalização do haicai.
Antes
disso, o mesmo Afrânio, em 1919, no prefácio do seu livro
“Trovas Populares Brasileiras”, apresenta o haicai e explica:
Os
japoneses possuem uma forma elementar de arte, mais simples ainda
que a nossa trova popular: é o haikai, palavra que nós ocidentais
não sabemos traduzir senão com ênfase, é o epigrama lírico. São
tercetos breves, versos de cinco, sete e cinco pés, ao todo
dezessete sílabas. Nesses moldes vazam, entretanto, emoções,
imagens, comparações, sugestões, suspiros, desejos, sonhos... de
encanto intraduzível.
Parece-nos
que o primeiro poeta brasileiro a publicar seus haicais em livro foi
Luiz Aranha, pois Mário de Andrade, em “Aspectos da Literatura
Brasileira” afirma que Aranha, em 22, já os produzia, podendo ser
encontrados no livro Poema
Giratório que, ainda segundo Mário de Andrade, não se trata
de um livro de haicais, mas entremeado por alguns deles.
Guilherme
de Almeida, no início do período de desenvolvimento do haicai no
Brasil, o dotou de uma estrutura formal rígida, com versos de 5/7/5
sílabas, como no Japão, entretanto com rimas e título, observando
as analogias plásticas entre
a poesia japonesa e a nossa, a luso-brasileira. No esquema
proposto por ele o primeiro verso rima com o terceiro e ambos
possuem cinco sílabas métricas. No segundo verso, que possui sete
sílabas, há uma rima interna que acontece entre a segunda e a sétima
sílaba, como no poema Velhice,
inserido em “Poesia Vária”, de 1947:
Uma
folha morta.
Um
galho no céu grisalho.
Fecho
a minha porta.
A
forma, ao longo do tempo, sofreu várias interferências e foi
utilizada à maneira que melhor se adequou cada autor, mas esta,
proposta por Guilherme, ainda possui praticantes no Brasil.
Antes
de Guilherme de Almeida se interessar pelo haicai, o poeta Waldomiro
Siqueira Jr., em 1933, já havia publicado o seu livro, cujo título
é, simplesmente, “Hai Kais”. Esses poemas eram todos sem rimas
e com títulos, como por exemplo, Misantropo:
Solidão
profunda
Pena
não poder livrar-me
Até
de mim mesmo.
Contemporâneos
de Waldomiro Siqueira, os poetas baianos, Oldegar Vieira, de
Salvador, e Gil Nunesmaia, natural de Ilhéus, em 1932, já
publicavam seus haicais no Jornal A Tarde. Depois, em Maio de 1933,
tiveram poemas reeditados na Revista da Academia Brasileira de
Letras. Eis um deles, de Oldegar Vieira, que se chama Sonho:
Para
colher perfumes
plantei
uma roseira...
Mas
só nasceram espinhos.
Mais
tarde, em 1940, Oldegar traz a público o seu livro “Folhas de Chá”
que teve uma segunda edição em 1976.
Gil
Nunesmaia (que fora médico e prefeito de Itabuna), apesar
de ter publicado muitos haicais em suplementos e revistas de
cultura, e de ter participado de várias antologias, somente
em 1978, aos 65 anos, através do Clube Grapiúna do Livro, veio a
publicar o seu “Intervalo”, uma obra que se divide em duas
partes: “Hai-Kais” e “Poemas”, esta última formada apenas
por versos livres. A seguir o poema O culpado:
O
vento rompeu
a
roupinha que secava.
-
Viu, mamãe, quem rasga?
Como
está claro, Gil Nunesmaia e Oldegar Vieira, foram dos primeiros
poetas a publicar haicais no Brasil, sendo que o segundo chegou a
ocupar uma cadeira na Academia de Letras da Bahia.
Eles foram pioneiros e a poesia de ambos pouco variou quanto
à forma, preferindo manterem-se fiéis ao cânone quanto à métrica,
mas sem o emprego das rimas, no caso de Gil Nunesmaia, que
ofereceu-nos momentos de puro lirismo, como
em Quadro Desfeito
:
Os
marrecos maus
vieram
desmanchar a lua
do
fundo do lago.
Originalmente,
no Japão, o Haijin (poeta que cultiva o haicai) canta as variações
da natureza e a sua influência na alma do poeta, bem como os meses
do ano, a fauna, a flora e os elementos da geografia, assuntos que
aparecem com constância na poesia de Gil Nunesmaia. É dele o poema
Depois da Chuva:
O
sol surge pálido,
e
lágrimas de alegria
caem
da folhagem.
Trata-se
da imagem perfeita de um dia nublado que se segue com chuva, prova
inconteste do poder de síntese e domínio estético sobre o haicai
que possuía este poeta que tão bem traduziu o sentimento
brasileiro nessa forma singela e peculiar de poesia. No haicai nada
pode ser demais, fingido ou arranjado, nada deve ser forçado. Cada
verso deve ser a fórmula aberta de momentos em que o poeta se
apresenta com a alma em estado de graça a cada fragmento da sua
poesia.
Poesia
e sublimação
Outro
poeta Baiano foi muito importante num segundo momento para o
desenvolvimento do haicai no Brasil. Trata-se do poeta e jornalista
Abel Pereira, nascido na cidade de Ilhéus, em 10 de Dezembro de
1908. Portanto, este ano de 2008 foi o ano do seu centenário, data
que deveria ser entusiasticamente celebrada pela Academia de Letras
de Ilhéus, entidade da qual foi seu fundador e primeiro presidente.
Entretanto, não sabemos por quais motivos, tal data passou em
brancas nuvens. Abel ainda foi membro de várias instituições como
o Instituto Histórico, Associação Brasileira de Imprensa, União
Brasileira dos Escritores, entre outras. Colaborou com diversos periódicos
como o Diário da Tarde, de Ilhéus, O Intransigente, de Itabuna, A
Voz de Itabuna, A Tarde, de Salvador e com a revista Leitura, do Rio
de Janeiro. Deixou quatro livros publicados: “Colheita” (1957),
“Poesia até Ontem” (1977), “Mármore Partido” (1989) e
“Haikais Vagaluminosos” (1989), todos de Haicai.
Antes
de Abel Pereira, temos conhecimento que pelo menos seis outros
poetas haviam publicado livros apenas de Haicais no Brasil, não
dois, como afirma Olga Savary no posfácio de Mármore Partido.
Waldomiro Siqueira Jr. foi o primeiro, em 1933 publicou o livro
“Hai Kais”; Jorge Fonseca Júnior, o segundo, em 1939 publicou
“Roteiro Lírico”; Oldegar Vieira, o terceiro, com “Folhas de
Chá”, em 1940; após, Osório Dutra, com “Emoção”, em 1945
e Guilherme de Almeida, com “Poesia Vária”, (1947). “Pétalas
ao Vento”, (1949), de Fanny Dupré, talvez tenha sido o sexto
livro publicado exclusivamente com haicais no Brasil e, segundo
Jorge Fonseca Júnior, que o prefaciou, o primeiro escrito por uma
mulher. Abel Pereira seria o sétimo, com “Colheita”, em 1957,
caso não haja algum equívoco em nossas pesquisas.
É
interessante notar que mesmo abraçando por inteiro o haicai, sua
poesia passou por mudanças importantes quanto à estrutura adotada
ao longo do tempo. Em um primeiro momento, fortemente influenciado
pelo modo de composição formulado por Guilherme de Almeida, como
no poema Biografia, poema
inserido no livro “Colheita”, Coleção Rex, Editora Rio, 1957:
Não
terei manhãs
de
glória. Fiz minha história,
só
de coisas vãs.
Quanto
à linguagem, o que podemos dizer é que, não apenas nesse livro,
mas em toda a sua obra, Abel Pereira, através de um vocabulário
apurado, faz com que seus versos ganhem um emprego metafórico
expressivo, o que enriquece a sua linguagem como em Miragem:
Passa
a mocidade...
e
incerto, à frente, o deserto
cheio
de saudade...
Sobre
“Colheita”, manifestou-se o poeta de Passárgada, Manoel
Bandeira, dizendo: Abel
Pereira é um craque do haicai. Desde o primeiro “Meu Livro”, são
cento e noventa e três estremecimentos, murmúrios ou rastros de
perfume.
Em
“Poesia até Ontem” Abel Pereira ainda segue nos rastros de
Guilherme de Almeida, porém com o cicerone de Menotti Del Picchia,
criador de “Juca Mulato”, que reconhece o talento do poeta
ilheense e busca influenciá-lo a deixar o verso medido, a forma, ao
escrever-lhe dizendo:
quem
tem tão funda intuição da poesia, porque se escraviza à prisão
de uma forma? Gostaria de ver seu estro, tão dentro de espírito da
hora, realizar-se livre e profundamente liberto de qualquer convenção,
numa plenitude. É, aliás, o que estou a exigir do poeta.
Justa
postulação de um poeta que também passou em sua atividade lírica
pela fase parnasiana, áspera e quase meramente técnica para depois
atingir, com “Chuva de Pedra”, (1925), a inquietude pesquisadora
de quem colhia os resultados da Semana de Arte Moderna de 1922.
Encontramos
em “Poesia até Ontem” um poeta ainda mais maduro que em
“Colheita”. Neste livro o poeta busca definir em Assim é o haicai... (um poema só, composto por dezoito haicais que
se amalgamam ao seu poder de exegese e observação) as características,
substâncias e elementos que compõem essa forma poética tão
sublime. E assim canta:
Com
tamanho zelo,
bem
vês como o japonês
soube
concebê-lo.
Coisa
delicada
e
fina. Estrofe menina.
Síntese.
Um nada.
E
conclui da seguinte forma:
Motivos
diversos.
A
nossa alma. O que se possa
dizer
em três versos.
Em
“Mármore Partido” e “Haikais Vagaluminosos”, ambos
publicados por Massao Ohno Editor, em 1989, seus livros mais
recentes, o poeta cede ao apelo da modernidade, como lhe
“exigiu” Menotti Del Picchia e destitui seus poemas de título,
abandonou a rima, mas não a métrica, aderindo a uma forma menos
ortodoxa, alinhada ao cânone japonês.
É
de “Mármore Partido” o seguinte poema:
Na
estrada deserta,
um
simples cair de folhas
quebrou
o silêncio.
E
de Haikais Vagaluminosos, um livro formado por noventa e nove
haicais onde a mata, crianças, estrelas, lírios, comparecem à
companhia da noite, numa verdadeira ode aos vaga-lumes, são os
seguintes poemas:
De
origem divina,
as
luzes dos vaga-lumes
são
luzes de Vida.
É
benção de luz,
a
vida dos vaga-lumes
na
vida da Noite.
Como
discorreu poeticamente Antônio Carlos Villaça a respeito da poesia
de Abel Pereira: A noite será
luminosa como o dia. O poeta sabe. Ele confia na luz. Ele espera a
beleza da aurora. Sua poesia é luminosa. Os haicais são lâmpadas
veladas a caminho da plenitude da aurora.
O
haicai na contemporaneidade
Deve-se
muito a Millôr Fernandes o desenvolvimento do haicai a partir das
suas tiradas humorísticas na revista Veja. Millôr deu um ar
descontraído ao haicai, aproximando-o do poema-piada, eliminando a
métrica, título e referências às estações do ano, contribuindo
para o aparecimento de jovens poetas.
Também
não se pode descartar a importância de poetas concretistas como
Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari que a partir da
segunda metade do século passado buscaram traduzir ou transcrever o
haicai japonês para o nosso idioma.
Mas
quando falamos de haicai no Brasil, o nome de Paulo Leminski surge
sempre em primeiro plano. Sabe-se que já no início da década de
60 ele começou a estudar japonês, cujo interesse, segundo
depoimento do seu amigo José Maria Correia à Casa Memória de
Curitiba, surgiu na academia de judô em que treinava.
Alinhado
aos valores contraculturais e libertários dos anos sessenta,
Leminski produziu uma obra tensa, densa e provocadora, como sua própria
personalidade. E como Millôr, o poeta de Curitiba também produziu
uma obra livre de amarras.
passa
e volta
a
cada gole
uma
revolta
Outros
haicaístas da sua geração que merecem destaque são Alice Ruiz
(ex-esposa de Leminski) e Olga Savary.
Na
Bahia, em 1995, o poeta e compositor José Carlos Capinan publicou
”Balança mas hai-kai”, com prefácio de Oldegar Vieira que
chama a atenção do leitor para as suas “impurezas”, pois o
autor foge sistematicamente das formas tradicionais, como a maioria
dos haicaístas influenciados por Millôr e Leminski. O próprio
Capinan, na apresentação do livro chama seus poemas de “hai-quases”,
em uma clara alusão a essa fuga da métrica. O livro apresenta 41
poemas com versos livres, como:
Tempos
kamikases
As
bombas de Oklahoma
São
karmas de Nagasaky
Ainda
hoje, outros poetas continuam a cultuar e cultivar o haicai na
Bahia, como os poetas grapiúnas Heitor Brasileiro Filho, Mither
Amorim, Lourival Pereira Júnior (Piligra), George Pellegrini e o
autor destas mal traçadas linhas, porém, o principal cultor baiano
de haicais na modernidade é o poeta Sérgio Marinho que, assim como
Leminski - que em seu livro “Bashô”,
recomenda àqueles que quisessem entender o zen a
matricularem-se na mais próxima academia de artes marciais -,
é um orgulhoso faixa-preta.
A
obra de Sérgio Marinho anda dispersa e pouco publicada em nossos veículos
especializados, pois ao que nos parece, o poeta é uma exceção.
Avesso às publicações, sequer tem o cuidado de catalogar seus
poemas que ficam guardados exclusivamente na memória. Também são
raras as oportunidades de vê-lo recitar em público.
São
de sua lavra os seguintes haicais:
todos
os meus ais
cabem
num
hai-kai
ao
olhar do travesti
confesso:
não
resisti
E
ainda:
em
matéria de vôo
tira
de letra
a
borboleta
Além
de ser um profundo conhecedor dos elementos que compõe o haicai,
uma peculiaridade a ser observada nos poemas de Sérgio Marinho é o
seu cuidado artesanal com a linguagem, o uso da rima, ora entre o
primeiro e o terceiro verso, ora entre o segundo e o terceiro,
instrumento que vem sendo deixado de ser usado pela maioria dos
cultores do haicai no Brasil.
Se
por um lado percebemos uma ressonância marcadamente concretista na
poesia de Sérgio Marinho, por outro, o que nos chama a atenção é
certo eco melancólico que o poeta encobre ao mesmo tempo que o
difunde, mesmo sem se propor.
Apesar
de existir a opinião de que, de um modo geral, o haicai está
marginalizado em meio à plêiade literária brasileira, o que
percebemos é que muitos são os poetas que se enveredam por suas
trilhas. No entanto ainda se faz necessário um estudo mais
aprofundado sobre o gênero, pois o que existe são apenas referências
históricas e ligeiras pinceladas nos suplementos literários e
sites com comentários a respeito dos trabalhos de alguns haicaístas
brasileiros.
Gustavo
Felicíssimo é poeta, pesquisador e ensaísta. Natural de Marília,
interior de São Paulo, está radicado na Bahia desde 1993. Foi
aluno da oficina de criação literária da mestra Maria da Conceição
Paranhos. Fundou juntamente com outros escritores o tablóide literário
SOPA, do qual foi seu editor. Ainda não possui livro publicado, mas
dois, um de poesia, outro de ensaios estão no prelo e virão a público
ainda em 2009. Edita o blog www.sopadepoesia.blogspot.com
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